jueves, 23 de julio de 2009

O sonho da liberdade humana e a práxis como elemento fundante.

Parto daí: o sonho da Liberdade Humana. Uma necessidade que foi se constituindo ao longo da história, ganhando sentidos de acordo com a posição de classe que cada um assume nessa história. A necessidade de usufruir o mundo através dos prazeres, e não da dor, move homens e mulheres na disputa por um modelo de sociedade justo.

O modelo de sociedade capitalista tem demonstrado ao longo dos anos que não é capaz de suprir as necessidades de uma maioria de pessoas que tem sido explorada por uma minoria. A quantidade de pessoas que não tem sequer um prato de comida para se alimentar enquanto outros têm mesas fartas; a quantidade de pessoas que não tem uma moradia digna em detrimento de outras que acumulam mais de uma casa e de proporções desnecessárias; grandes concentrações de terra nas mãos de poucos enquanto uma maioria está ávida por um pedaço de terra onde possa plantar, cultivar e colher os frutos; a impossibilidade de usufruir do trabalho criativo sem que lhe roubem o tempo e as crises que freqüentemente sacrificam trabalhadores e trabalhadoras e a natureza são alguns poucos exemplos do que esse sistema político-econômico e social tem produzido.

Todavia essas relações de exploração não são percebidas de tal forma por todos aqueles a que o sistema submete. O sistema apresenta além das bases materiais para a sua sustentação, mecanismos de acorrentamento e de consolidação através da dominação das mentes dos indivíduos. A aparência sobrepõe a essência e faz as pessoas aceitarem normalmente as condições impostas.

Ao mundo da aparência determinado pela dominação da classe burguesa que coisifica, fragmenta e simplifica a realidade a fim de hegemonizar o seu projeto, Kosik (2002) dá o nome de pseudoconcreção.

A pseudoconcreção burguesa dispõe de mecanismos para normalizar, consensuar a aparência de que tudo está bem e não deve ser questionado. Exterioriza fenômenos, transformando tudo em coisas aparentes. Coisifica relações. Formula meios de reproduzir essas exteriorizações e determina verdades do sistema. Para isso dispõe de instrumentos ideológicos como a educação formal e informal que se da nas células escola, família, religião, mídia, partidos políticos, movimentos sociais, organizações não-governamentais, sindicatos e estado.

A reprodução dessas verdades se dá de forma fragmentada, conduzindo os indivíduos à perda da totalidade. Essa reprodução social leva as pessoas a terem respostas prontas, pré-determinadas e a formarem representações comuns de verdades absolutas e inquestionáveis.

Diante desse acarbouço de mecanismos de dominação, muitos pensadores vêm sistematizando as idéias de trabalhadores e trabalhadoras sobre o desejo de modificar as relações de dominação burguesa imposta desde o surgimento do capital.

Sergio Lessa e Ivo Tonet (2008), em Introdução a Filosofia de Marx, situam a existência de duas grandes linhas ideológicas para uma questão que vem permeando o debate sobre a “exploração do homem pelo homem”.

Para uma corrente mais conservadora, a exploração do homem sobre o homem não é possível de ser superada, visto que corresponde a verdadeira essência humana. Autores como Martin Heidegger, J. Habermas, H.Arendt, N.Bobbio e J. Rawls formalizam a idéia de que o capitalismo, a democracia burguesa e o mercado são mecanismos de mediação insuperáveis da vida civilizada.

Todos eles, cada um a sua maneira, buscam conservar o capitalismo e consideram a impossibilidade a sociedade emancipada comunista tal como proposta por Marx.(Lessa e Tonet, 2008, p.13)

Para esses conservadores, essa essência humana não pode ser alterada pela história.

Contrapondo-se a essa visão, os revolucionários acreditam que não apenas é possível como também necessário a humanidade superar a exploração e opressão, uma vez que a evolução do modo de produção e organização social capitalista caminha para a destruição da humanidade e a forma de evitá-la e superar as desumanidades do sistema capitalista.


Dizem os revolucionários que o capitalismo não é o fim da historia. (...) existe a possibilidade histórica de a fraternidade comunista se tornar, nas nossas vidas cotidianas, um fato tão característico da futura essência humana. (Lessa e Tonet, 2008 p.15)

Essa concepção se coloca como a mais plausível. Assim cabe ao sujeito revolucionário num processo dialético construir a sua história, seduzindo outros para em conjunto chegar à práxis libertária.

A tarefa de modificar as relações materiais de exploração e o arcabouço ideológico, constituído pelo sistema capitalista não se trata de algo fácil e determinado apenas pelas vontades de homens e mulheres sonhadores.

Marx analisando os pensamentos precedentes aos dele percebe que apenas boas idéias não são suficientes para mudar a correlação de forças entre a classe burguesa e o proletariado. Da mesma forma, identifica que apenas ações práticas, sem reflexão não conduzem às mudanças estruturais que o concreto vivido exige.

Assim Marx critica o idealismo de Hegel e a praticidade simplificada dos materialistas vulgares como Feurbach, contudo assimilando das duas fontes constitui o que mais tarde se consolidaria como um método cientifico para a leitura da realidade e preparação para atuar sobre ela- o materialismo histórico e dialético (MHD).

O método marxista se apresenta então como uma ferramenta da classe trabalhadora para interpretar a realidade com vistas à superação do sistema capitalista.

A atuação sobre a realidade deve se dá de forma refletida ou a reflexão de forma prática. Esse exercício se apresenta para os pensadores marxistas como a práxis.

“A práxis é tanto objetivação do homem e domínio da natureza quanto realização da liberdade humana” (kosik, 2002).

Ê através da práxis que o homem toma consciência de si e de sua existência, assumindo a dimensão de totalidade que foi roubada, destruída pelo capitalismo. Mantendo relação com a natureza (meio), modificando-o ou e avançando para a libertação humana.

Fala-se na existência de vários estágios da práxis.

A práxis reificadora como o estágio em que a dominação do pensamento e prática burguesa (de uma classe dominante sobre outra) prevalece. Nesse estágio, as pessoas reproduzem o que o sistema capitalista dita sem refletir sobre ele e os impactos de cada uma dessas determinações.

A práxis reflexiva como etapa em que os indivíduos conseguem refletir sobre o mundo e suas determinações podendo ou não, proporem-se a modificar a realidade a partir dessa reflexão. São exemplos desse estágio a percepção de uma pessoa sobre a injustiça de ter que trabalhar horas a mais, recebendo pelo tempo trabalhado o mesmo valor que por um tempo menor de trabalho antes realizado e, no entanto, aceitar essa condição como algo imutável ou no outro caso, de alguém que numa mesma situação e percepção contribui na organização de uma greve com os trabalhadores. Esse estágio é tido como revelador de condições de mudanças, ou simplificadamente, o “dar conta de si”.

Superando essa etapa, o individuo - coletivo pode atingir a práxis revolucionaria. Esta permite a desocultação da verdade burguesa e a superação desta através da implantação de um projeto. A existência de um projeto é o diferencial desse estagio.

E por fim a práxis libertária como aquela em que os indivíduos coletivos libertam e se libertam por completo, expressando a realização completa do ser humano no mais essencial significado da palavra.

Nesse estágio o homem tem condições de concretizar o sonho da liberdade humana.

Esse processo de libertação, todavia não se dá de forma linear ou em etapas. A libertação de homens e mulheres acontece dialeticamente, podendo recuar ou avançar à medida que estes e estas criam condições para tal, mediado pela historia.

Sem a práxis revolucionaria o ser humano não modifica o mundo em que vive. “O homem supera (transcende) originariamente a situação não com a sua consciência, as intenções e projetos, mas com a práxis.” (Kosik, 2002). Para o sonho da liberdade se tornar, portanto, realidade, homens e mulheres precisarão constantemente exercitar a práxis revolucionaria.


Referência

Kosik, Karel.A dialética do Concreto. Rio de Janeiro: Paz e terra. 7ª edição, 2002.

Lessa, Sergio. Tonet, Ivo. Introdução a filosofia de Marx. São Paulo: expressão popular, 2008.


Km 44, CIDAP/CEFORMA, Espírito Santo- ES.

2 comentarios:

  1. Texto muito bom Anja!
    Me dá cada vez mais sede de ler muita coisa que não li ainda, o próprio Karlão e o compa Engels.

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  2. hummm... que bom!!! o teu empolgar me empolgou..:P Compa!

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