Quando pouso os óculos sobre a mesa para uma pausa na leitura de coisas feitas,ou na feitura de minhas próprias coisas, surpreendo-me a indagar com que se parecem os óculos sobre a mesa. Com algum inseto de grandes olhos e negras e longas pernas ou antenas? Com algum ciclista tombado? Não, nada disso me contenta ainda. Com que se parecem mesmo? E sinto que, enquanto eu não puder captar a sua implícita imagem-poema, a inquietação perdurará. E enquanto o meu Sancho Pança, cheio de si e de senso-comum, declara ao meu Dom Quixote que uns óculos sobre a mesa, além de parecerem apenas uns óculos sobre a mesa, são, de fato, um par de óculos sobre a mesa, fico a pensar qual dos dois – Dom Quixote ou Sancho? – vive uma vida mais intensa e, portanto, mais verdadeira... E paira no ar o eterno mistério dessa necessidade da recriação das coisas em imagens, para terem mais vida, e da vida em poesia, para ser mais vivida. Esse enigma, eu o passo a ti, pobre leitor. E agora? Por enquanto, ante a atual insolubilidade da coisa, só me resta citar o terrível dilema de Stechetti: “Io sonno um poeta o sonno um imbecille?” Alternativa, aliás, extensiva ao leitor de poesia... A verdade é que a minha atroz função não é resolver e sim propor enigmas, fazer o leitor pensar e não pensar por ele.E daí? – Mas o melhor – pondera-me, com a sua voz pausada, o meu Sancho Pança – o melhor é repor depressa os óculos no nariz.
A Vaca e o Hipogrifo. Porto Alegre: Garatuja, 1977, pag. 59-60.
Não estou só! Estou cá com os meus botões, ganhando vida! Sentido! Pena...o tempo de pausa passa...
Daqui desse momento Do meu olhar pra fora O mundo é só miragem A sombra do futuro A sobra do passado A sombra é uma paisagem Quem vai virar o jogo e transformar a perda Em nossa recompensa Quando eu olhar pro lado Eu quero estar cercado só de quem me interessa
Às vezes é um instante A tarde faz silêncio O vento sopra a meu favor Às vezes eu pressinto e é como uma saudade De um tempo que ainda não passou Por trás do seu sossego, atraso o meu relógio Acalmo a minha pressa Me dá sua palavra Sussure em meu ouvido Só o que me interessa
A lógica do vento O caos do pensamento A paz na solidão A órbita do tempo A pausa do retrato A voz da intuição A curva do universo A fórmula do acaso O alcance da promessa O salto do desejo O agora e o infinito Só o que me interessa...
Em 2010, mais uma vez, nós militantes da Marcha Mundial das Mulheres dos cinco continentes estaremos em marcha. Vamos marchar para demonstrar nossa perseverança e nossa força como mulheres organizadas, com distintas experiências, culturas políticas e origens étnicas. Temos uma identidade e objetivos comuns: o desejo de superar a injusta ordem atual que provoca violência e pobreza, e construir o mundo que queremos baseado na paz, justiça, igualdade, liberdade e solidariedade.
Vamos marchar em solidariedade com aquelas mulheres que não tem liberdade para fazê-lo devido às guerras e aos conflitos armados; devido à divisão sexual do trabalho que mantém as mulheres prisioneiras em suas próprias casas; devido ao sistema capitalista e patriarcal que determina que a esfera pública - ruas, lugares de trabalho, lugares de aprendizado e política, espaço para lazer - está reservada aos homens. E devido à falta de tempo das mulheres, por que temos que fazer malabarismos para dar conta das responsabilidades do cuidado com as pessoas ao nosso redor.
Vamos marchar para reivindicar nossos direitos. Vamos marchar para resistir àqueles que querem tirar os direitos que temos conquistado em nossa luta contra a ofensiva do fundamentalismo religioso e dos setores conservadores da sociedade e do Estado. Estaremos em marcha pelo mundo que queremos, no qual a autonomia, a autodeterminação e a solidariedade são pilares da organização da nossa sociedade.
Vamos marchar em luta contra a mercatilização das nossas vidas, sexualidade e corpos. Não somos objetos para vender ou comprar! Nos negamos a ser tratadas como pedaços de carne pelo tráfico de mulheres, pela indústria pornográfica e publicitária! Não vamos aceitar a violência em nossas casas e locais de trabalho! Estaremos em marcha até que todas as mulheres vivam suas vidas livres de violência e ameaça de violência.
Vamos marchar para denunciar o sistema capitalista sexista, racista e homofóbico que explora o trabalho reprodutivo e produtivo das mulheres e que concentra a riqueza na mão de poucos. Demandamos igualdade salarial entre homens e mulheres pra trabalhos iguais, um salário mínimo justo, a reorganização e distribuição do trabalho doméstico e de cuidados e seguridade social sem nenhum tipo de discriminação. Estaremos em marcha até que todas as mulheres tenham autonomia econômica.
Vamos marchar pelo fim imediato dos conflitos armados e do uso do corpo das mulheres como botim de guerra. Vamos marchar para denunciar os interesses econômicos que se escondem por trás dos conflitos, o controle dos recursos naturais, o controle dos povos e o lucro da indústria armamentista. Estaremos em marcha até que todas as mulheres sejam reconhecidas e valorizadas como protagonistas dos processos de paz, reconstrução e manutenção ativa da paz em seus próprios países.
Vamos marchar contra a privatização dos recursos naturais e dos serviços públicos. Vamos marchar pela soberania alimentar e energética, contra a destruição e controle dos nossos territórios e contra as falsas soluções frente a mudança climática. Estaremos em marcha até que nossos direitos a saúde, a educação, a água potável, ao saneamento, a terra, a moradia e soberania sobre nossas sementes tradicionais sejam garantidos.
Some-se a nossa ação!
Mulheres em movimento mudam o mundo!
A 3ª Ação Internacional da Marcha Mundial das Mulheres será organizada em dois momentos principais:
- De 8 a 18 de março, com marchas e mobilizações nacionais simultâneas de diferentes tipos, formas, cores e ritmos que também marcarão o centenário da Declaração do Dia Internacional das Mulheres, proposto pelas delegadas à 2ª Conferencia Internacional das Mulheres Socialistas em Copenhague em 1910.
- Marchas e ações simultâneas entre 7 e 17 de outubro, com uma mobilização internacional em Kivu do Sul, na Republica Democrática do Congo, como uma forma de fortalecer o protagonismo das mulheres na resolução dos conflitos armados.
Serão realizadas mobilizações, ações e atividades entre estes dois períodos, em vários países e também em nível regional:
- Américas: 21 - 23 de agosto, na Colômbia - Ásia e Oceania: 12 - 14 de maio, nas Filipinas - Europa: 30 de junho, na Turquia
A ação internacional é aberta a todas as mulheres e grupos de mulheres que queiram se unir a nós na luta pela construção do mundo que queremos, baseado nas alternativas das mulheres. Venham marchar conosco!
No Brasil, vamos marchar de 8 a 18 de março, entre Campinas e São Paulo. As informações e contatos nos estados estão disponíveis em www.sof.org.br/acao2010, ou pelo telefone (11) 38193876 .
A Marcha Internacional também tem um site, com textos, logos e outros materiais que podem ser usados para preparar a ação assim como notícias dos diversos países participantes: http://www.mmm2010.info
- Quem é você?
- Adivinha se gosta de mim
Hoje os dois mascarados procuram os seus namorados perguntando assim:
- Quem é você, diga logo...
- ...que eu quero saber o seu jogo
- ...que eu quero morrer no seu bloco...
- ...que eu quero me arder no seu fogo
- Eu sou seresteiro, poeta e cantor
- O meu tempo inteiro, só zombo do amor
- Eu tenho um pandeiro
- Só quero um violão
- Eu nado em dinheiro
- Não tenho um tostão...Fui porta-estandarte, não sei mais dançar
- Eu, modéstia à parte, nasci prá sambar
- Eu sou tão menina
- Meu tempo passou
- Eu sou colombina
- Eu sou pierrô
Mas é carnaval, não me diga mais quem é você
Amanhã tudo volta ao normal
Deixa a festa acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar
Que hoje eu sou da maneira que você me quer
O que você pedir eu lhe dou
Seja você quem for, seja o que Deus quiser
Seja você quem for, seja o que Deus quiser
Ao contrário da intelectualidade burguesa, o marxismo define o Estado como produto do antagonismo entre as classes e instrumento de controle de uma classe sobre a outra. Assim a necessidade de destruição do Estado está relacionada ao fim das classes como forma de superação do modo de produção, fundado na exploração e apropriação do trabalho alheio. Segundo Lenin,
“O Estado é o produto e a manifestação do antagonismo inconciliável das classes. O estado aparece onde e na medida em que os antagonismos de classes não podem objetivamente ser conciliados. E, reciprocamente, a existência do Estado prova que as contradições de classes são inconciliáveis.” (Lenin, pág.25).
Considerando então que o Estado é o centro de poder que garante por meio da força o domínio de uma classe sobre a outra e na sociedade burguesa e que reproduz os mecanismos de exploração da classe trabalhadora, o papel dos sujeitos de organizações revolucionárias consiste na tomada do poder do Estado. Como afirma o trecho abaixo:
“Sem a conquista do Estado não é possível assegurar aos trabalhadores o controle dos meios de produção e a construção do socialismo. A conquista revolucionária do Estado implica na concepção de ruptura e destruição do Estado. (Consulta Popular, pág.41).
Sendo realizada a tomada do poder do estado, deve-se instaurar a ditadura do proletariado, com o objetivo de controlar os meios de produção e impedir a reorganização da classe burguesa. Esse processo, no entanto, deve ser concomitante à criação de instrumentos de substituição dos aparelhos do Estado que possibilitem uma transição ao comunismo, ou seja, a tomada do poder do Estado e o seu controle pelo proletariado é uma etapa necessária à superação da sociedade de classes.
No atual momento de descenso da luta de classes, é necessário constituir uma organização política de quadros capazes de combinar a necessidade de fomentar e fortalecer as lutas reivindicatórias populares e de massas, com as tarefas políticas próprias de um partido revolucionário.
“Nossa primeira e imperiosa obrigação é contribuir para formar revolucionários operários que estejam no mesmo nível dos revolucionários intelectuais em relação à sua atividade no Partido.“ (Lenin, pág. 17)
Cabe a essa organização, portanto, recolocar na esquerda o debate da perspectiva poder e a centralidade da tomada do Estado e ao mesmo tempo operar na elevação do nível de consciência da classe trabalhadora, acumulando na formação política de quadros revolucionários, na apropriação e aprimoramento de ferramentas da agitação e propaganda para o trabalho de base junto a trabalhadores e trabalhadoras em torno de pautas democrático- populares que embora não sejam diretamente tidas como revolucionárias, acumulam para o processo revolucionário no sentido de estimular as pessoas a se organizar e participarem de lutas demassas.
Entender o papel de dominação do Estado e a necessidade imperiosa de superação dele é tarefa fundamental para os sujeitos revolucionários. Apropriar-se da teoria revolucionária apenas, no entanto, não é suficiente, é preciso no cotidiano exercitar as tarefas mencionadas dentro das organizações revolucionárias.
Referências
Consulta Popular. Cartilha 19. Resoluções da 3ª Assembléia Nacional.
LENIN, V.I., QUE FAZER?, 1902.
LENIN,V.I.O Estado e a Revolução.São Paulo: Expressão Popular, 1ª edição, 2007.
* Texto redigido para a Disciplina Estado e Sociedade do Curso de Especialização em Economia e Desenvolvimento Agrário (UFES/ENFF) ministrada pelos Professores Hélder Gomes, Paulo Nakatani e Rogério (UFES).