Acontece que Maria, em processo, acordava dos tempos antigos. Penteava-se não como antes. Despia-se não como antes. Vestia-se não como antes. Sonhava não como antes. Amava não como antes.
Maria já não era como antes. Isso decorria de um acúmulo de experiências vividas e não vividas que aos poucos foi lhe tirando do alto das casas de árvores e colocando-a em terra seca e batida. O desencantamento tirava-lhe a ingenuidade, o sorriso e a sensibilidade. Resistia ao agouros da vida humana como quem nada contra uma maré forte. Embora tivesse uma força grande em virtude de sua juventude avassaladora, a maré é mais forte e rasga-lhe a pele, o corpo todo, modificando a sua fala (a do corpo) e mostrando uma personalidade que se constrói.
Maria já não é tão doce como antes. Maria já não sorri como antes. Mas ri. Maria já não canta como antes. Mas canta. Maria já não dança como antes. Mas dança!
Maria amadurece. Revira-se de ponta a cabeça, ora buscando sentido ora somente sentindo. Vasculha os lugares mais inóspitos de sua psiquê. Observa os detalhes. Alarga os limites.Abre as frestas para que o mundo entre. Desamarra os nós que amarraram no passado e, não livre, se deixa amarrar em outros nós. Mas é persistente e segue desatando os nós que deixam a vida dela um pouco misteriosa.
Maria abre mais os olhos. Escuta mais com os ouvidos.Saboreia mais com a língua. Sente mais com o nariz e com a pele.
Maria se conhece cada vez mais e as pessoas lá fora cada vez menos a conhecem. Não porque ela não se mostre, mas porque elas não se permitem perceber. Estão em ritmos acelerados e superficiais e não conseguem captar a essência.
Maria não. Avança, em processo, captando a essência.
Antes que eu me pusesse novamente a pensar em superstições, em histórias inventadas para as crianças, saltei da cama, lavei o rosto, derramei o perfume e sai à rua... Pensei que sendo uma sexta-feira fosse encontrar o burburinho de uma cidade provinciana, em que os bichos e bichas estão soltos, gritando, despejando, vomitando o que incomoda a alma e o corpo, vindo do que a semana cheia de sobrecargas e do não-tempo livre resultou. Abri os olhos, ainda fechados pelo cansaço da semana. Que susto! As pessoas sumiram... Sai correndo pelas ruas... Batendo nas portas das casas vizinhas, entrando nos bares da esquina... Ninguém encontrei. Foram embora e me deixaram? Rapitados, convencidos ou com os próprios pés? E mãos? Desolada diante da procura sem êxito, parei... ofegante. Comecei a ouvir uns sons que rompendo o silêncio, o meu próprio silêncio, me alegrava. Gargalhadas, músicas, aplausos. Pareciam felizes!
Tinha demorado a acordar e a desesperança do cotidiano sem invenções, por pouco, me fez perder o trem. Gritei: Pare!!! Também quero entrar!
Não era qualquer trem. As frases dos livros que li começaram a saltar à mente e a boca não as reteve. Um camarada barbudo, com cabelos brancos e aparentemente cansado, era responsável pelo passeio. Mas tinham outras tantas figuras que pra mim eram apenas histórias de livros e de militantes “sonhadores”. Tinha um Lenin e uma Rosa. Uma kollontai, uma Clara. Um Carlos, uma Olga. Um Zumbi e uma Dandara. Uma Eleonora, uma Aurora. Um Zapata e um Che Guevara. Há...tinha outras e outros mais, mas nem mais dos nomes lembrara.
Como ainda estava em vida, resolvi saltar depois de mais algumas estações. Percebi que o caminho é tão mais longo. Percebi que o silêncio da sexta-feira, nada mais era o silêncio feito pelas mordaças. Mas percebi também que não estava sozinha... Outras e outros camaradas desceram do trem.
Reconheci-os, entrelacei as mãos e seguimos em frente!
Contos sobre o compreensível e o incompreensível nas mulheres.
Nira.
Estava escuro... Os passos eram firmes e ao mesmo tempo leves... O mundo se passava em sua cabeça. Lembranças de um passado não muito distante. Lembranças dos perfumes, dos toques, da companhia.
Lembranças... Lembranças são marcas bem resolvidas nas nossas mentes. Mesmo que elas sejam ruins ou boas, curtas ou longas.
Essa era a vida de Nira... Lembrava. Lembrava de tudo e até do que não viveu.
Depois de nove meses longe de casa... Nira lembrava entre os passos trocados como a sua vida tinha mudado.
Algo ou alguém estava sendo gestado em seu ventre. Tinha já sentido os sinais mais incômodos e os mais deliciosos que uma gravidez pode trazer para uma mulher. Mas tinha também sofrido. Sofrido com o fardo de ser mãe geradora, vítima de um mundo...
Dores intermitentes começava a sentir... contrações... suores... temores...
Nove meses...coisas haveriam também de ter mudado na “sua casa”.
Vivera um grande amor. Amor do tipo prisão. Mas era amor. Por isso sofrera tanto...
Um homem despertara nela um sentimento profundo. Pena que o sentimento só havia sido despertado nela...
O seu choro confundia-se com o da criança. Lira nascera para enfrentar a vida cantando...