jueves, 7 de agosto de 2014

Tudo Muda. (SOJA & O Rappa)


(Everything Changes ft. Falcão of O Rappa)


Tudo Muda (part. O Rappa)

O que nós realmente precisamos
Nessa vida?
As vezes eu olho pra mim mesmo
E sinto que não está certo

Pessoas lá fora sem
Comida à noite
E nós dizemos que nos importamos, mas nós não nos importamos
Então todos mentimos

E se existisse mais do que isso
E um dia nós
Nos tornássemos o que nós fazemos
Não o que falamos?

E nós terminássemos
Nessa merda toda em que eles estão
E os papéis fossem invertidos
E fosse diferente

E nós fossemos aqueles
Sem nada para comer
Nós fossemos aqueles
Com sangue nas nossas ruas

Nós fossemos aqueles
Com toda a descendência
E eles fossem aqueles
Que só assistem a TV

Nós fossemos aqueles
Quebrados e despedaçados
Com nossas vidas nas costas
E nossa esposa nos braços

E eles fossem aqueles
Que diziam "caramba, isso é tão triste"
Nós fossemos
Aqueles...

Nada nunca mudará
É a única coisa que eu sei
Que nada nunca mudará
Olhando por esse lado
Nada nunca mudará
Nada nunca mudará

Falcão:
Olhe pros seus sonhos suas intenções
Abra sua cabeça pra seus corações
Transformar algumas centenas em milhões
Pois, todos unidos somos então nações
Nem se ele estiver no sonho e eu também
Imagino quase é sempre o melhor pra alguém
Tipo nessa vida não se descontrolar
Dormir à noite com o assassino é melhor não se revoltar
Agora, trouxa, olha pros seus pesadelos
E ainda não ainda são seus piores medos
Há mestiços, brancos e negros
Gringos, negros, gringos e negros
Olha que você é obrigado a votar
Sua chance no Brasil é de alguém te conquistar
Oooh
De alguém te conquistar

Nada nunca mudará
Pelo menos é assim que nós agimos
Como se nada nunca mudasse
Como se Deus nos desse cobertura
Como se nada nunca mudasse
Estou olhando por esse lado
E eu posso ver que essa dor, sim
Só vai crescer

Sonho e intenções
Centenas em milhões
Unidos somos então nações
Milhões
Também
Melhor pra alguém

Talvez nós precisemos
De mais calçados nos nossos pés
Talvez nós precisemos
De mais roupas e TV's

Talvez nós precisemos
De mais dinheiro e joias
Ou talvez nós não sabemos
O que precisamos

Talvez nós precisemos
Querer consertar tudo isso
Talvez parar de falar
Talvez começar a escutar

Talvez nós precisemos
Olhar para esse mundo
Menos como um quadrado
E mais como um círculo

Talvez, apenas talvez
Deus não seja injusto
Talvez nós sejamos todos Seus filhos
E ele esteja lá em cima

Talvez ele nos ame
Por todas as nossas raças
Talvez ele nos odeie
Quando somos tão racistas

Talvez ele nos olhe
Quando não nos importamos
E o céu seja bem aqui
Mas é o inferno do lado de lá

E talvez os mansos
Herdarão a Terra
Porque isso já foi escrito antes

Então tudo muda
E nada permanece o mesmo
E tudo muda
E se você se sente envergonhado
Talvez você devesse mudar isso
Antes que seja tarde demais
Talvez você devesse mudar isso
Meu irmão, nós estamos empacados no portão

Tudo muda, muda, muda...
Muda, muda, muda...
Tudo muda, muda, muda...
Tudo muda

miércoles, 6 de agosto de 2014

A mola mestra da vida:a auto-estima.

É tão bom quando agente tem consciência (não meramente fisiológica) do nosso viver. 

Ficamos mais fortes, mais donas/os de si, entendendo que no corpo físico e emocional em que habitamos há qualidades e defeitos que são produto das nossas vivências. Somos resultado de uma construção social. Isso implica dizer que somos repletos de contradições e que as reproduzimos cotidianamente. E é importante que se considere a infância e a adolescência como momentos importantíssimos para avaliar como  hoje somos.  

Falar ou escrever sobre isso é bem mais fácil que materializar ações que burilem o que somos a partir do que queremos evoluir. 

Cada um de nós tem seus projetos de vida, crenças e ambições que são construídas a partir dessas experiências que são materializadas, mas o que nos define, a priori, são as escolhas que fazemos de acordo com esses projetos de sociedade e de vida. Há que se considerar a correlação de forças e a hegemonia dos projetos de sociedade. Alguns estão momentaneamente perdendo e outros ganhando. E nesse "parque de diversões", é preciso saber movimentar a mola-mestra.

Alguns escolhem, às vezes, inconscientemente, serem os que SEMPRE  "carregam as caixas" e ainda deixam ( timidamente e submissamente) que no meio da caminhada outras pessoas acrescentem mais peso  a essas caixas. Há pessoas que APENAS colocam objetos pesados nas caixas, enchem-nas de prepotência, arrogância e autoritarismo e ainda pisam sobre a cabeça dos que carregam essas caixas . 
E há um meio-termo. Antes, façamos uma ressalva aos " espertinhos" : aqui não se trata de ficar em cima do muro.

Parece-nos ser a condição mais agradável, mas não a mais fácil de se obter,visto que é necessário sair da zona de conforto e cotidianamente exercer um processo de auto-crítica não culpabilizante sobre si mesmo e seus atos. Nessa condição, faz-se as duas tarefas: primeiro, enche-se as caixas (às vezes só, às vezes bem acompanhado)  e também se caminha  carregando as caixas nos ombros ou na cabeça, como se queira (às vezes só, às vezes bem acompanhado).
Dito de outra forma, podemos dizer que existem as pessoas submissas, as dominadoras e as assertivas. 
É sobre essa ASSERTIVIDADE que falamos.  É preciso muito burilar,  perder parte das peças, voltar  e recuperar uma parte delas que nos servem e seguir na caminhada e com sorte, nela, apreender a poesia de Guimarães Rosa: 

"Todo caminho
Todo caminho da gente é resvaloso. Mas também , cair não prejudica demais. A gente levanta, a gente sobe, a gente volta!... O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: Esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa. Sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria. E ainda mais alegre no meio da tristeza..."

Cuidemos da nossa auto-estima. Desenvolvamos nossa capacidade de sermos nós mesmas/os, respeitando a individualidade do outro e os limites das relações. Saibamos estabelecer relações saudáveis de afeto e cumplicidade, sem que exista dependência emocional em todos os âmbitos. 

Auto-estima é tudo, mas tem que ser equilibrada. Nem pra baixo (submissão, timidez, sentimento de inferioridade), nem muito pra cima (arrogância, intolerância, autoritarismo...) 

Sejamos sujeitas/os das nossas vidas e da nossa história.

Para seguir esse caminho é preciso desprendimento, flexibilidade, força e muita coragem.

 A cabeça está fervilhando sobre um monte de coisas da vida.

Isso é bom! Estou muito viva e, sobretudo, amando-me muito.

sábado, 2 de agosto de 2014

Eu também sou de Aquário.

Urano movimenta boas energias ( Urano em Sagitário- expansão). O sol tem em mim o impulso criador nato de áries e a busca pela liberdade que se expressa também no meio do céu ( em Aquário regido por Urano).  
É a busca desse céu como sinônimo de liberdade coletiva, onde todo mundo possa ter sua individualidade respeitada sem que essa oprima e explore o outro. Àries, Sagitário e Aquário são  três signos justiceiros e revolucionários. 
Não há então como deixar a vida somente passar,  sendo indiferente às agruras  dessas mulheres e homens que tem seu suor derramado para garantir a luxúria de uns poucos desgraçados. 

Era de Aquarius
Quando a lua estiver na sétima casa
E júpiter alinhar-se com Marte
Então a paz guiará os planetas
E o amor dirigirá as estrelas

Este é começo da era de aquarius
A era de aquarius
Aquarius
Aquarius

Harmonia e compreensão
Simpatia e confiança em abundância
Sem mais falsidades ou zombarias
Sonhos vivos brilhantes de visões
Revelação do cristal místico
E a verdadeira libertação da mente
Aquarius
Aquarius

Quando a lua estiver na sétima casa
E júpiter alinhar-se com Marte
Então a paz guiará os planetas
E o amor dirigirá as estrelas

Este é começo da era de aquarius
A era de aquarius
Aquarius
Aquarius

( Tradução da música " Age of Aquarius" de The mamas & The Papas) 


viernes, 1 de agosto de 2014

Rubem Alves segue vivo: Escutatória.


Além das aparências, prefiro os sabiás.

 Amo a simplicidade  da mensagem e, ao mesmo tempo, o impacto da escrita de Rubem Alves.  Com ele aprendi como histórias ( fictícias ou não) escritas com  a mais pura propriedade de quem as aprendeu na lida diária podem mudar a forma de ver o mundo de quem as lê. Que diga eu e os sabiás de Rubem Alves. 
(Vide: Além das aparências, prefiro os sabiás; Autoconhecimento, renascimento e maturidade )



Ele se foi em carne e osso, mas ficou em muita sabedoria. Gratidão,  meu amigo, Rubem Alves. 

Abaixo  uma amostra das pérolas dele.


Escutatória



Ou o silêncio como alimento


Rubem Alves

  
Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Parafraseio Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma".  Não aguentamos ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor: "Se eu fosse você..." Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer,  que é muito melhor. Certo estava Lichtenberg - citado por Murilo Mendes: "Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas".

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos. Foi trabalhar num programa social com os índios. Contou-me sua experiência. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. Todos à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou." E assim vai a reunião.
Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos, passei uma semana num mosteiro na Suíça. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz aonde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira,  ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça,  iluminada por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em "U" definiam um espaço vazio onde quem quisesse podia sentar numa almofada. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu  e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E comecei a me alimentar de silêncio também...

Rubem Alves Educador e escritorrubem_alves@uol.com.br   

martes, 29 de julio de 2014

Tempo de serpente.

Sabe quando não se vê  mais as coisas com olhos pueris?

Nem  se enxerga o mundo com desalento? 

As cores não mais se vê alvoraçadamente,

Mas elas lá brilhantes estão? 



Chegou o tempo da serpente.  

Insultado por Saturno. E atiçado por Escorpião. 

Pôs a vida pelo avesso. 

Enfiou as garras por dentro, revirando as vísceras para o mal-me-quer-bem.


Ofiolia?  

Sim! Atração.

É tempo de volúpia, morte-vida, cura e renascimento.



Pele nova em cima da pele nem tão velha.

Kundalini subindo. 


É tempo de serpente. 

Corpo no chão, firme. 

Rastejando, languidamente esperta. 




É tempo de assertividade, resiliência, sagacidade e sabedoria.  

É tempo de picar quando se é atacado e sem dó deixar veneno.

Mas é tempo, sobretudo, de envolver a quem se deixar seduzir...



Dedico "Galeano" às "bruxas": as mulheres não exemplares.

Recebi esse presente da minha querida amiga- companheiraTita.  E não poderia deixar de postá-lo  para, quem sabe, inspirar outras tantas de nós que estamos na transição para o mundo das mulheres ( e homens) não exemplares, leia-se, àquelas/es que subvertem o imposto pelos valores patriarcais e capitalistas  e experimentam a fartura do texto de Galeano não após a morte, mas sim na vida. 

Gratidão a Galeano também pelo qual me  (re)apaixono a cada leitura sobre as coisas da vida viradas pelo avesso. 






A mulher exemplar


Viveu obedecendo à missão bíblica e à tradição histórica. Ela varria, lustrava, ensaboava, enxaguava, passava, costurava e cozinhava.
Às oito da manhã em ponto servia o café, com uma colherada de mel para o eterno ardor de garganta do marido. Ao meio-dia em ponto servia o almoço, consomê, purê de batata, frango cozido, pêssegos em calda, e às oito em ponto o jantar, com o mesmo menu.
Jamais se atrasou, jamais se antecipou. Comia em silêncio, porque não era mulher opinativa nem perguntativa, enquanto o marido contava suas façanhas presentes e passadas.
Depois do jantar, demorava, lavando os pratos lentamente, e entrava na cama rogando a Deus que ele já estivesse dormindo.
Naquele tempo já estava bastante difundida a máquina de lavar a roupa, o aspirador elétrico e o orgasmo feminino, que tinham chegado pouco depois da penicilina; mas ela não acompanhava as novidades.
Escutava apenas as radionovelas, e era rara a vez em que saía do refúgio de paz onde vivia a salvo da violência do mundo.
Uma tarde, saiu. Foi visitar uma irmã doente.
Quando regressou, ao anoitecer, encontrou o marido morto.
Alguns anos depois, a abnegada confessou que esta história não havia terminado exatamente assim.
Contou outro final a um vizinho chamado Gerado Mendive, que contou a um vizinho que contou a outro vizinho que contou a outro: ao voltar da casa da irmã, ela encontrou o marido caído no chão, arfando, revirando os olhos, a cara cor de tomate, e passou ao lado, se meteu na cozinha, preparou um inesquecível banquete de lulas em sua tinta e merluza à moda vasca, com uma sobremesa de torre alta de frutas e sorvetes, tudo isso regado com um vinho antigo e de boa cepa que tinha escondido, e às oito da noite em ponto, como era seu dever, serviu o jantar, se fartou de comer e beber, confirmou que ele estava definitivamente quieto no chão, fez o pelo-sinal, vestiu-se de negro e telefonou para o médico.

Eduardo Galeano. Bocas do tempo.

lunes, 28 de julio de 2014

Saindo da Zona de conforto! É preciso respirar...

Debaixo D'agua



Arnaldo Antunes

Debaixo dágua tudo era mais bonito
mais azul mais colorido
só faltava respirar
Mas tinha que respirar
Debaixo dágua se formando como um feto
sereno confortável amado completo
sem chão sem teto sem contato com o ar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Debaixo dágua por encanto sem sorriso e sem pranto
sem lamento e sem saber o quanto
esse momento poderia durar
Mas tinha que respirar
Debaixo dágua ficaria para sempre ficaria contente
longe de toda gente para sempre
no fundo do mar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Debaixo dágua protegido salvo fora de perigo
aliviado sem perdão e sem pecado
sem fome sem frio sem medo sem vontade de voltar
Mas tinha que respirar
Debaixo dágua tudo era mais bonito
mais azul mais colorido
só faltava respirar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
(Arnaldo Antunes)
Na voz de Maria Bethânia: 

viernes, 25 de julio de 2014

25 de julho- Dia de luta latino-americano e caribenho das mulheres negras!




Nós, mulheres negras brasileiras, descendentes das aguerridas quilombolas e que lutam pela vida, vimos neste 25 de Julho – Dia da Mulher Afrolatinoamericana e Afrocaribenha denunciar a ação sistemática do racismo e do sexismo com que somos atingidas diariamente mediante a conivência do poder público e da sociedade, com a manutenção de uma rede de privilégios e de vantagens que nos expropriam oportunidades de condição e plena participação da vida social.
Nesta data vimos visibilizar a incidência do racismo e do sexismo em nossas vidas, assim como as nossas estratégias de sobrevivência, nosso legado ancestral e nossos projetos de futuro e afirmar que a continuidade de nossa comunidade, da nossa cultura e dos nossos saberes se deve única e exclusivamente, a nós, mulheres negras. Transcorrido esse marco histórico e a atualidade de nossas lutas, nos valemos do Dia da Mulher Afrolatinoamericana e Afrocaribenha para anunciar a realização da Marcha das Mulheres Negras 2015 Contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, que realizaremos em 13 de maio do próximo ano, em Brasília.
Somos 49 milhões de mulheres negras, isto é, 25% da população brasileira. Vivenciamos a face mais perversa do racismo e do sexismo por sermos negras e mulheres. No decurso diário de nossas vidas, a forjada superioridade do componente racial branco, do patriarcado e do sexismo, que fundamenta e dinamiza um sistema de opressões que impõe, a cada mulher negra, a luta pela própria sobrevivência e de sua comunidade. Enfrentamos todas as injustiças e negações de nossa existência, enquanto reivindicamos inclusão a cada momento em que a nossa exclusão ganha novas formas.
Impõe-se na luta pela terra e pelos territórios quilombolas, de onde tiramos o nosso sustento e mantemo-nos ligadas à ancestralidade.
A despeito da nossa contribuição, somos alvo de discriminações de toda ordem, as quais não nos permitem, por gerações e gerações de mulheres negras, desfrutarmos daquilo que produzimos.
Fomos e continuamos sendo a base para o desenvolvimento econômico e político do Brasil sem que a distribuição dos ativos do nosso trabalho seja revertida para o nosso próprio benefício.
Consideramos que, mesmo diante de um quadro de mobilidade social pela via do consumo, percebido nos últimos anos, as estruturas de desigualdade de raça e de gênero mantêm-se por meio da concentração de poder racial, patriarcal e sexista, alijando a nós, mulheres negras, das possibilidades de desenvolvimento e disputa de espaços como deveria ser a máxima de uma sociedade justa, democrática e solidária.
Não aceitamos ser vistas como objeto de consumo e cobaias das indústrias de cosméticos, moda ou farmacêutica. Queremos o fim da ditadura da estética europeia branca e o respeito à diversidade cultural e estética negra. Nossa luta é por cidadania e a garantia de nossas vidas.
Estamos em Marcha para exigir o fim do racismo em todos os seus modos de incidência, a exemplo da saúde, onde a mortalidade materna entre mulheres negras estão relacionadas à dificuldade do acesso aos serviços de saúde, à baixa qualidade do atendimento recebido aliada à falta de ações e de capacitação de profissionais de saúde voltadas especificamente para os riscos a que as mulheres negras estão expostas; da segurança pública cujos operadores e operadoras decidem quem deve viver e quem deve morrer mediante a omissão do Estado e da sociedade para com as nossas vidas negras.
Denunciamos as batalhas solitárias contra a drogadição e a criminalização do nosso povo e contra a eliminação de nossas filhas e filhos pelas forças policiais e pelo tráfico, há muito tempo! Denunciamos o encarceramento desregrado de nossos corpos, vez que representamos mais de 60% das mulheres que ocupam celas de prisões e penitenciárias deste país.
Ao travarmos batalhas solitárias por justiça num quadro de extrema violência racial, denunciamos a cruel violência doméstica que vem levando aos maus tratos e homicídios de mulheres negras, silenciados em dados oficiais. Lutamos pelo fim do racismo estrutural patriarcal que promove a inoperância do poder público e da sociedade sobre a exterminação da nossa população negra .
Estamos em marcha para reivindicamos o livre culto de nossas divindades de matriz africana sem perseguições, nem profanações e depredações de nossos templos sagrados.
Estamos em marcha contra a remoção racista das populações das localidades onde habitam.Lutamos por moradia digna; por cidades que não limitem nosso direito de ir e vir e contra a segregação racial do espaço urbano e rural; por transporte coletivo de qualidade; por condições de trabalho decente nas diferentes profissões que exercemos. Valorizamos nosso patrimônio imaterial em terreiros, escolas de samba, blocos afros, carimbó, literatura e todas as demais manifestações culturais, definidoras da nossa identidade negra.
Estamos em marcha porque somos a imensa maioria das que criam nossos filhos e filhas sozinhas, as chefes de famílias, com parcos recursos e o suor de nosso único e exclusivo trabalho.
Estamos em Marcha:
 pelo fim do femicídio de mulheres negras e pela visibilidade e garantia de nossas vidas;
 pela investigação de todos os casos de violência doméstica e assassinatos de mulheres negras, com a penalização dos culpados;
 pelo fim do racismo e sexismo produzidos nos veículos de comunicação promovendo a violência simbólica e física contra as mulheres negras;
 pelo fim dos critérios e práticas racistas e sexistas no ambiente de trabalho;
 pelo fim das revistas vexatórias em presídios e as agressões sumárias às mulheres negras em casas de detenções;
 pela garantia de atendimento e acesso à saúde de qualidade às mulheres negras e pela penalização de discriminação racial e sexual nos atendimentos dos serviços públicos;
 pela titulação e garantia das terras quilombolas, especialmente em nome das mulheres negras, pois é de onde tiramos o nosso sustento e mantemo-nos ligadas à ancestralidade;
 pelo fim do desrespeito religioso e pela garantia da reprodução cultural de nossas práticas ancestrais de matriz africana;
 pela nossa participação efetiva na vida pública.
Buscamos num processo de protagonismo político das mulheres negras, em que nossas pautas de reivindicação tenham a centralidade neste país. Nosso ponto de chegada e início de uma nova caminhada é 13 de maio de 2015 – Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo – em Brasília/DF.
Conclamamos, a todas as mulheres negras, para que se juntem a esse processo organizativo, nos locais onde estiverem, e a se integrarem nessa Marcha pela nossa cidadania.
Imbuídas da nossa força ancestral, da nossa liberdade de pensamento e ação política, levantamo-nos – nas cinco regiões deste país – para construir a Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, para que o direito de vivermos livres de discriminações seja assegurado em todas as etapas de nossas vidas.
ESTAMOS EM MARCHA !
“UMA SOBE E PUXA A OUTRA!”
Brasil, 25 de Julho de 2014.
Comitê Impulsor Nacional da Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver 2015

Reproduzido do site: http://2015marchamulheresnegras.com.br/