viernes, 1 de agosto de 2014

Rubem Alves segue vivo: Escutatória.


Além das aparências, prefiro os sabiás.

 Amo a simplicidade  da mensagem e, ao mesmo tempo, o impacto da escrita de Rubem Alves.  Com ele aprendi como histórias ( fictícias ou não) escritas com  a mais pura propriedade de quem as aprendeu na lida diária podem mudar a forma de ver o mundo de quem as lê. Que diga eu e os sabiás de Rubem Alves. 
(Vide: Além das aparências, prefiro os sabiás; Autoconhecimento, renascimento e maturidade )



Ele se foi em carne e osso, mas ficou em muita sabedoria. Gratidão,  meu amigo, Rubem Alves. 

Abaixo  uma amostra das pérolas dele.


Escutatória



Ou o silêncio como alimento


Rubem Alves

  
Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Parafraseio Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma".  Não aguentamos ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor: "Se eu fosse você..." Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer,  que é muito melhor. Certo estava Lichtenberg - citado por Murilo Mendes: "Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas".

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos. Foi trabalhar num programa social com os índios. Contou-me sua experiência. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. Todos à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou." E assim vai a reunião.
Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos, passei uma semana num mosteiro na Suíça. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz aonde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira,  ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça,  iluminada por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em "U" definiam um espaço vazio onde quem quisesse podia sentar numa almofada. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu  e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E comecei a me alimentar de silêncio também...

Rubem Alves Educador e escritorrubem_alves@uol.com.br   

martes, 29 de julio de 2014

Tempo de serpente.

Sabe quando não se vê  mais as coisas com olhos pueris?

Nem  se enxerga o mundo com desalento? 

As cores não mais se vê alvoraçadamente,

Mas elas lá brilhantes estão? 



Chegou o tempo da serpente.  

Insultado por Saturno. E atiçado por Escorpião. 

Pôs a vida pelo avesso. 

Enfiou as garras por dentro, revirando as vísceras para o mal-me-quer-bem.


Ofiolia?  

Sim! Atração.

É tempo de volúpia, morte-vida, cura e renascimento.



Pele nova em cima da pele nem tão velha.

Kundalini subindo. 


É tempo de serpente. 

Corpo no chão, firme. 

Rastejando, languidamente esperta. 




É tempo de assertividade, resiliência, sagacidade e sabedoria.  

É tempo de picar quando se é atacado e sem dó deixar veneno.

Mas é tempo, sobretudo, de envolver a quem se deixar seduzir...



Dedico "Galeano" às "bruxas": as mulheres não exemplares.

Recebi esse presente da minha querida amiga- companheiraTita.  E não poderia deixar de postá-lo  para, quem sabe, inspirar outras tantas de nós que estamos na transição para o mundo das mulheres ( e homens) não exemplares, leia-se, àquelas/es que subvertem o imposto pelos valores patriarcais e capitalistas  e experimentam a fartura do texto de Galeano não após a morte, mas sim na vida. 

Gratidão a Galeano também pelo qual me  (re)apaixono a cada leitura sobre as coisas da vida viradas pelo avesso. 






A mulher exemplar


Viveu obedecendo à missão bíblica e à tradição histórica. Ela varria, lustrava, ensaboava, enxaguava, passava, costurava e cozinhava.
Às oito da manhã em ponto servia o café, com uma colherada de mel para o eterno ardor de garganta do marido. Ao meio-dia em ponto servia o almoço, consomê, purê de batata, frango cozido, pêssegos em calda, e às oito em ponto o jantar, com o mesmo menu.
Jamais se atrasou, jamais se antecipou. Comia em silêncio, porque não era mulher opinativa nem perguntativa, enquanto o marido contava suas façanhas presentes e passadas.
Depois do jantar, demorava, lavando os pratos lentamente, e entrava na cama rogando a Deus que ele já estivesse dormindo.
Naquele tempo já estava bastante difundida a máquina de lavar a roupa, o aspirador elétrico e o orgasmo feminino, que tinham chegado pouco depois da penicilina; mas ela não acompanhava as novidades.
Escutava apenas as radionovelas, e era rara a vez em que saía do refúgio de paz onde vivia a salvo da violência do mundo.
Uma tarde, saiu. Foi visitar uma irmã doente.
Quando regressou, ao anoitecer, encontrou o marido morto.
Alguns anos depois, a abnegada confessou que esta história não havia terminado exatamente assim.
Contou outro final a um vizinho chamado Gerado Mendive, que contou a um vizinho que contou a outro vizinho que contou a outro: ao voltar da casa da irmã, ela encontrou o marido caído no chão, arfando, revirando os olhos, a cara cor de tomate, e passou ao lado, se meteu na cozinha, preparou um inesquecível banquete de lulas em sua tinta e merluza à moda vasca, com uma sobremesa de torre alta de frutas e sorvetes, tudo isso regado com um vinho antigo e de boa cepa que tinha escondido, e às oito da noite em ponto, como era seu dever, serviu o jantar, se fartou de comer e beber, confirmou que ele estava definitivamente quieto no chão, fez o pelo-sinal, vestiu-se de negro e telefonou para o médico.

Eduardo Galeano. Bocas do tempo.

lunes, 28 de julio de 2014

Saindo da Zona de conforto! É preciso respirar...

Debaixo D'agua



Arnaldo Antunes

Debaixo dágua tudo era mais bonito
mais azul mais colorido
só faltava respirar
Mas tinha que respirar
Debaixo dágua se formando como um feto
sereno confortável amado completo
sem chão sem teto sem contato com o ar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Debaixo dágua por encanto sem sorriso e sem pranto
sem lamento e sem saber o quanto
esse momento poderia durar
Mas tinha que respirar
Debaixo dágua ficaria para sempre ficaria contente
longe de toda gente para sempre
no fundo do mar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Debaixo dágua protegido salvo fora de perigo
aliviado sem perdão e sem pecado
sem fome sem frio sem medo sem vontade de voltar
Mas tinha que respirar
Debaixo dágua tudo era mais bonito
mais azul mais colorido
só faltava respirar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
(Arnaldo Antunes)
Na voz de Maria Bethânia: 

viernes, 25 de julio de 2014

25 de julho- Dia de luta latino-americano e caribenho das mulheres negras!




Nós, mulheres negras brasileiras, descendentes das aguerridas quilombolas e que lutam pela vida, vimos neste 25 de Julho – Dia da Mulher Afrolatinoamericana e Afrocaribenha denunciar a ação sistemática do racismo e do sexismo com que somos atingidas diariamente mediante a conivência do poder público e da sociedade, com a manutenção de uma rede de privilégios e de vantagens que nos expropriam oportunidades de condição e plena participação da vida social.
Nesta data vimos visibilizar a incidência do racismo e do sexismo em nossas vidas, assim como as nossas estratégias de sobrevivência, nosso legado ancestral e nossos projetos de futuro e afirmar que a continuidade de nossa comunidade, da nossa cultura e dos nossos saberes se deve única e exclusivamente, a nós, mulheres negras. Transcorrido esse marco histórico e a atualidade de nossas lutas, nos valemos do Dia da Mulher Afrolatinoamericana e Afrocaribenha para anunciar a realização da Marcha das Mulheres Negras 2015 Contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, que realizaremos em 13 de maio do próximo ano, em Brasília.
Somos 49 milhões de mulheres negras, isto é, 25% da população brasileira. Vivenciamos a face mais perversa do racismo e do sexismo por sermos negras e mulheres. No decurso diário de nossas vidas, a forjada superioridade do componente racial branco, do patriarcado e do sexismo, que fundamenta e dinamiza um sistema de opressões que impõe, a cada mulher negra, a luta pela própria sobrevivência e de sua comunidade. Enfrentamos todas as injustiças e negações de nossa existência, enquanto reivindicamos inclusão a cada momento em que a nossa exclusão ganha novas formas.
Impõe-se na luta pela terra e pelos territórios quilombolas, de onde tiramos o nosso sustento e mantemo-nos ligadas à ancestralidade.
A despeito da nossa contribuição, somos alvo de discriminações de toda ordem, as quais não nos permitem, por gerações e gerações de mulheres negras, desfrutarmos daquilo que produzimos.
Fomos e continuamos sendo a base para o desenvolvimento econômico e político do Brasil sem que a distribuição dos ativos do nosso trabalho seja revertida para o nosso próprio benefício.
Consideramos que, mesmo diante de um quadro de mobilidade social pela via do consumo, percebido nos últimos anos, as estruturas de desigualdade de raça e de gênero mantêm-se por meio da concentração de poder racial, patriarcal e sexista, alijando a nós, mulheres negras, das possibilidades de desenvolvimento e disputa de espaços como deveria ser a máxima de uma sociedade justa, democrática e solidária.
Não aceitamos ser vistas como objeto de consumo e cobaias das indústrias de cosméticos, moda ou farmacêutica. Queremos o fim da ditadura da estética europeia branca e o respeito à diversidade cultural e estética negra. Nossa luta é por cidadania e a garantia de nossas vidas.
Estamos em Marcha para exigir o fim do racismo em todos os seus modos de incidência, a exemplo da saúde, onde a mortalidade materna entre mulheres negras estão relacionadas à dificuldade do acesso aos serviços de saúde, à baixa qualidade do atendimento recebido aliada à falta de ações e de capacitação de profissionais de saúde voltadas especificamente para os riscos a que as mulheres negras estão expostas; da segurança pública cujos operadores e operadoras decidem quem deve viver e quem deve morrer mediante a omissão do Estado e da sociedade para com as nossas vidas negras.
Denunciamos as batalhas solitárias contra a drogadição e a criminalização do nosso povo e contra a eliminação de nossas filhas e filhos pelas forças policiais e pelo tráfico, há muito tempo! Denunciamos o encarceramento desregrado de nossos corpos, vez que representamos mais de 60% das mulheres que ocupam celas de prisões e penitenciárias deste país.
Ao travarmos batalhas solitárias por justiça num quadro de extrema violência racial, denunciamos a cruel violência doméstica que vem levando aos maus tratos e homicídios de mulheres negras, silenciados em dados oficiais. Lutamos pelo fim do racismo estrutural patriarcal que promove a inoperância do poder público e da sociedade sobre a exterminação da nossa população negra .
Estamos em marcha para reivindicamos o livre culto de nossas divindades de matriz africana sem perseguições, nem profanações e depredações de nossos templos sagrados.
Estamos em marcha contra a remoção racista das populações das localidades onde habitam.Lutamos por moradia digna; por cidades que não limitem nosso direito de ir e vir e contra a segregação racial do espaço urbano e rural; por transporte coletivo de qualidade; por condições de trabalho decente nas diferentes profissões que exercemos. Valorizamos nosso patrimônio imaterial em terreiros, escolas de samba, blocos afros, carimbó, literatura e todas as demais manifestações culturais, definidoras da nossa identidade negra.
Estamos em marcha porque somos a imensa maioria das que criam nossos filhos e filhas sozinhas, as chefes de famílias, com parcos recursos e o suor de nosso único e exclusivo trabalho.
Estamos em Marcha:
 pelo fim do femicídio de mulheres negras e pela visibilidade e garantia de nossas vidas;
 pela investigação de todos os casos de violência doméstica e assassinatos de mulheres negras, com a penalização dos culpados;
 pelo fim do racismo e sexismo produzidos nos veículos de comunicação promovendo a violência simbólica e física contra as mulheres negras;
 pelo fim dos critérios e práticas racistas e sexistas no ambiente de trabalho;
 pelo fim das revistas vexatórias em presídios e as agressões sumárias às mulheres negras em casas de detenções;
 pela garantia de atendimento e acesso à saúde de qualidade às mulheres negras e pela penalização de discriminação racial e sexual nos atendimentos dos serviços públicos;
 pela titulação e garantia das terras quilombolas, especialmente em nome das mulheres negras, pois é de onde tiramos o nosso sustento e mantemo-nos ligadas à ancestralidade;
 pelo fim do desrespeito religioso e pela garantia da reprodução cultural de nossas práticas ancestrais de matriz africana;
 pela nossa participação efetiva na vida pública.
Buscamos num processo de protagonismo político das mulheres negras, em que nossas pautas de reivindicação tenham a centralidade neste país. Nosso ponto de chegada e início de uma nova caminhada é 13 de maio de 2015 – Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo – em Brasília/DF.
Conclamamos, a todas as mulheres negras, para que se juntem a esse processo organizativo, nos locais onde estiverem, e a se integrarem nessa Marcha pela nossa cidadania.
Imbuídas da nossa força ancestral, da nossa liberdade de pensamento e ação política, levantamo-nos – nas cinco regiões deste país – para construir a Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, para que o direito de vivermos livres de discriminações seja assegurado em todas as etapas de nossas vidas.
ESTAMOS EM MARCHA !
“UMA SOBE E PUXA A OUTRA!”
Brasil, 25 de Julho de 2014.
Comitê Impulsor Nacional da Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver 2015

Reproduzido do site: http://2015marchamulheresnegras.com.br/

miércoles, 2 de julio de 2014

É 1º de julho, "baby"... "Sou minha, só minha e não de quem quiser..."



Eu vejo que aprendi 

O quanto te ensinei 
E nos teus braços que ele vai saber
Não há por que voltar
Não penso em te seguir
Não quero mais a tua insensatez

O que fazes sem pensar aprendeste do olhar
E das palavras que eu guardei prá ti
Não penso em me vingar
Não sou assim
A tua insegurança era por mim

Não basta o compromisso
Vale mais o coração
Já que não me entendes, não me julgues
Não me tentes
O que sabes fazer agora
Veio tudo de nossas horas
Eu não minto, eu não sou assim
Ninguém sabia e ninguém viu
Que eu estava a teu lado então
Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher
Sou minha mãe e minha filha, 
Minha irmã, minha menina
Mas sou minha, só minha e não de quem quiser
Sou Deus, tua deusa, meu amor
Alguma coisa aconteceu
Do ventre nasce um novo coração

Não penso em me vingar
Não sou assim
A tua insegurança era por mim
Não basta o compromisso

Vale mais o coração
Ninguém sabia, ninguém viu
Que eu estava ao teu lado então

Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher
Sou minha mãe e minha filha, 
Minha irmã, minha menina
Mas sou minha, só minha e não de quem quiser
Sou Deus, tua deusa, meu amor
Baby, baby, baby, baby

O que fazes por sonhar
É o mundo que virá pra ti e para mim
Vamos descobrir o mundo juntos baby
Quero aprender com o teu pequeno grande coração
Meu amor, meu amor.

Link: http://www.vagalume.com.br/cassia-eller/1-de-julho.html#ixzz36KXeigeO

domingo, 6 de abril de 2014

"Negra! Negra! Negra! Negra!": Me gritaram negra. Que lindo soa...


Me Gritaron Negra


Tenía siete años apenas,
apenas siete años,
¡Que siete años!
¡No llegaba a cinco siquiera!

De pronto unas voces en la calle
me gritaron ¡Negra!
¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra!

“¿Soy acaso negra?” – me dije ¡SÍ!
“¿Qué cosa es ser negra?” ¡Negra!
Y yo no sabía la triste verdad que aquello escondía. Negra!
Y me sentí negra, ¡Negra!
Como ellos decían ¡Negra!
Y retrocedí ¡Negra!
Como ellos querían ¡Negra!
Y odié mis cabellos y mis labios gruesos
y miré apenada mi carne tostada
Y retrocedí ¡Negra!
Y retrocedí…
¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra!
¡Negra! ¡Negra! ¡Neeegra!
¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra!
¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra!

Y pasaba el tiempo,
y siempre amargada
Seguía llevando a mi espalda
mi pesada carga

¡Y cómo pesaba! ...
Me alacié el cabello,
me polveé la cara,
y entre mis cabellos siempre resonaba
la misma palabra
¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra!
¡Negra! ¡Negra! ¡Neeegra!
Hasta que un día que retrocedía,
retrocedía y que iba a caer
¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra!
¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra!
¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra!
¡Negra! ¡Negra! ¡Negra!
¿Y qué?

¿Y qué? ¡Negra!
Sí ¡Negra!
Soy ¡Negra!
Negra ¡Negra!
Negra soy

¡Negra! Sí
¡Negra! Soy
¡Negra! Negra
¡Negra! Negra soy
De hoy en adelante no quiero
laciar mi cabello
No quiero
Y voy a reírme de aquellos,
que por evitar – según ellos –
que por evitarnos algún sinsabor
Llaman a los negros gente de color
¡Y de qué color! NEGRO
¡Y qué lindo suena! NEGRO
¡Y qué ritmo tiene!
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO
Al fin
Al fin comprendí AL FIN
Ya no retrocedo AL FIN
Y avanzo segura AL FIN
Avanzo y espero AL FIN
Y bendigo al cielo porque quiso Dios
que negro azabache fuese mi color
Y ya comprendí AL FIN
Ya tengo la llave
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO
¡Negra soy!
 
 (Victoria Santa Cruz)
 
Fonte: Portal Vermelho

martes, 1 de abril de 2014

Campanha "Eu não mereço ser estuprada".

Sobre os últimos debates em relação ao estupro, com pouco tempo,  reproduzo aqui o texto da Jornalista Nana Queiroz que iniciou a campanha  na internet após divulgação de  pesquisa sobre  o uso de roupas curtas para as mulheres e a motivação para o estupro.

“Eu não mereço ser estuprada”: um artigo da criadora do movimento

Nana Queiroz iniciou campanha online contra a ideia de atribuir culpa do estupro à vítima
Nana Queiroz iniciou campanha online contra a ideia de atribuir culpa do estupro à vítima
O texto abaixo, de Nana Queiroz, foi publicado originalmente na bbc brasil. Nana, 28 anos, é autora do movimento “Eu não mereço ser estuprada”, criado no Facebook na última quinta-feira em resposta ao resultado de uma pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) segundo a qual 65% dos brasileiros acham que mulheres com roupas curtas merecem ser atacadas.
Desde que iniciei o protesto on-line “Eu não mereço ser estuprada”, na noite da última quinta-feira, recebi uma série de depoimentos de mulheres, homens e adolescentes que foram vítimas de abuso sexual. É incrível como essas histórias têm força, muito mais força que os números. E o que vi é que o estupro geralmente não ocorre à noite, num beco escuro. Ele ocorre, principalmente, em situações mais cinzentas.
No Distrito Federal, onde vivo, uma pesquisa publicada no ano passado, por exemplo, indicou que 85,2% dos estupros acontecem dentro da casa da vítima ou do agressor. Os números são chocantes, e me sinto na obrigação de contar sobre alguns rostos por trás das estatísticas.
Todos os nomes a seguir são fictícios.
Joana foi abusada sexualmente pelo pai durante toda a infância. O mais curioso é que ela só percebeu ter sido vítima de abuso na vida adulta – e o pai dela não percebeu até hoje. Sabe por quê? Porque ele nunca a penetrou. Enfiava a mão por dentro de sua calcinha, acariciava seus seios mas, para ele, abuso sexual é penetração.
No entanto, segundo a Lei Ordinária Federal nº 12.015, de 2009, que alterou o Código Penal Brasileiro, o crime de estupro não se refere somente à penetração, mas a qualquer ato de “conjunção carnal ou outro ato libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima”.
Outra história. Certa noite, Maria estava entediada. Foi à casa de um amigo em quem confiava muito para ouvir música e beber até cair. Temerosa de dirigir para casa embriagada, ela pediu para dormir em seu sofá até que o efeito do álcool se dissipasse. Acordou algumas horas depois com a bruta inserção de um pênis em sua vagina. Ela gritou, protestou, exigiu que parasse. Ele prosseguiu até não conseguir mais lutar contra ela. Argumentou que a culpa era dela por ter dormido na casa dele.
Nesse caso, vale um raciocínio básico: na dúvida, é estupro. Não tem certeza se ela está suficientemente consciente? É estupro. Não sabe se álcool ou drogas afetaram sua capacidade de julgamento? É estupro. Ela está semiacordada? É estupro.
Devíamos nos concentrar em explicar aos homens como não estuprar, e não em dizer às mulheres como não serem estupradas.
Marco foi estuprado aos cinco anos pelo irmão. Na vida adulta, ele teve coragem de contar aos pais. Pressionado para dar explicações, o abusador, que era bem mais velho que Marco, afirmou: “Eu já havia percebido que ele era gay, imaginei que ele iria gostar, e ele gostou.”
Mas crianças não podem “gostar” ou não de sexo. Elas ainda não têm a maturidade e os critérios para definir se desejam ou não uma relação sexual. A ONG Childhood, que trabalha com vítimas de pedofilia, explica que “a natureza sexuada, inerente a qualquer criança, não pode ser entendida no sentido genital, mas sim no contexto de uma série de experiências psicológicas e físicas que vão, aos poucos, dando forma a seu pensamento e a seu corpo, ao que ela pensa sobre seu corpo e como o sente”.
Mais: vocês sabiam que mais de um terço dos abusadores de crianças são também menores de idade? Ou seja, você que forçou seu primo ou prima mais nova a ter envolvimento sexual com você também cometeu um abuso, mesmo sendo menor de idade. Este é o caso de Marcelo, um belo homem que foi abusado constantemente por um primo cinco anos mais velho durante a infância.
Quando enfrentou o abusador, apoiado pela família, na vida adulta, o abusador alegou: “Eu também era menor de idade, portanto, não sou culpado”. É, sim. Mas, claro, deve ser tratado como um menor ofensor, que não tinha seu caráter ainda completamente formado.
Finalmente, gostaria de dizer que tenho recebido e-mails de pessoas que sugerem castração e pena de morte para abusadores. Não creio que a solução esteja por aí. A lei brasileira já protege amplamente o abusado. Temos que pedir que ela seja aplicada e não que endureça. O trabalho deve se concentrar em educar os homens para que não estuprem, as mulheres para que denunciem, os policiais para que não culpem as vítimas e os familiares para que não acobertem os casos de abuso intrafamiliares.
O primeiro passo para evitar mais histórias como as de Marco, Marcelo, Maria e Joana é a mudança do discurso. Diga às suas filhas que elas são dignas e que seu corpo é só delas. Ensine seus filhos a respeitar as mulheres e buscar o sexo como uma experiência mágica a dois. Não deixemos esse movimento morrer. Eu lancei a pergunta, agora, a resposta é com vocês!

domingo, 23 de marzo de 2014

Solitude + amor próprio = amor compartilhado em equilíbrio.

Deu vontade de compartilhar. Apenas substituiria a palavra solidão por solitude.




"Primeiro fique sozinho.
Primeiro comece a se divertir sozinho.
Primeiro amar a si mesmo.
Primeiro ser tão autenticamente feliz, que se ninguém vem, não importa; você está cheio, transbordando.
Se ninguém bate à sua porta, está tudo bem -
Você não está em falta.
Você não está esperando por alguém para vir e bater à porta.
Você está em casa.
Se alguém vier, bom, belo.
Se ninguém vier, também é bom e belo
Em seguida, você pode passar para um relacionamento.
Agora você se move como um mestre, não como um mendigo.
Agora você se move como um imperador, não como um mendigo.
E a pessoa que viveu em sua solidão será sempre atraídos para outra pessoa que também está vivendo sua solidão lindamente, porque o mesmo atrai o mesmo.
Quando dois mestres se encontram - mestres do seu ser, de sua solidão -felicidade não é apenas acrescentada: é multiplicada.
Torna-se uma tremendo fenômeno de celebração.
E eles não exploram um ao outro,, eles compartilham.
Eles não utilizam o outro.
Em vez disso, pelo contrário,
ambos tornam-se UM e
desfrutam da existência que os
rodeia."

************* OSHO *************





sábado, 8 de marzo de 2014

2014: Muitos 8 de março virão...

Apesar de estar afastada do ativismo da militância social, continuo muito inquieta com toda a conjuntura econômico-social e política por qual passamos e, realista, tendo a não florear a realidade. Muitos 8 de março virão: confusos, fetichizados e festejados por muitos/as, especialmente pelos donos de grandes empresas capitalistas e por homens e mulheres que reproduzem o discurso do capital. Virão como sinônimo de luta, também, mas ainda para poucas mulheres que entendem a conjuntura, sabem do conteúdo histórico-político desse dia para a atual condição das vidas das mulheres em todo o mundo.

Embora devamos reconhecer que as mulheres atuais diferem bastante daquelas com posturas recatadas e submissas das senhoritas e senhoras de outrora , tendo uma postura pró-ativa nas suas vidas, buscando sua autonomia emocional e material, os tempos são confusos e entorpecem  muita gente com discursos de que as mulheres já conquistaram espaços demais na sociedade e que têm poder sobre o próprio corpo. 

A entrada  das mulheres no mundo do trabalho não foi conquista das mulheres, embora se repita isso em alto e bom tom nos quatro cantos do mundo.  Num mundo em que a ganância  pelos lucros e pelo enriquecimento de poucos, as mulheres trabalhadoras foram empurradas para as fábricas e demais setores, posteriormente, pela necessidade de ampliação  e exploração da força de trabalho. Com uma força de trabalho barateada e com jornadas de trabalho desumanas, mulheres  foram introduzidas na produção sem contudo, lhe fosse retirada o papel central no processo de reprodução do capital. 
O capital passa a explorar a força de trabalho das mulheres nas fábricas e desresponsabiliza-se de investir na reprodução dessa força de trabalho, cabendo assim às mulheres o papel de cozinhar, lavar, cuidar dos filhos e de idosos e  parcela da reprodução biológica de mais trabalhadores e o lazer de homens com vidas subsumidas ao trabalho . 
A divisão sexual de trabalho  que antes  existia apenas no espaço privado ( domicílios) amplia-se para o espaço  público da produção. E a mulher acumula tarefas na produção e na reprodução do capital. 
É bem verdade, que as lutadoras sufragistas introduziram a mulher no mundo oficial da política tendo direito a votar e ser votadas. Bem sabemos, entretanto, que esse espaço é limitado pela expressão da sociedade atual. Como a base material da sociedade, continua expressa numa ideologia burguesa, patriarcal e conservadora, o que temos, no Brasil hoje, são bancadas cada vez mais conservadoras e reacionárias que tem tentado e, infelizmente, conseguido retroceder nos direitos das mulheres conquistados com tanto ardor. Então hoje, questiono-me , nessa conjuntura, até que ponto vale disputar a construção de uma reforma política para ampliar a participação das mulheres  no parlamento enquanto a consciência,determinada por essa base material, de trabalhadoras e trabalhadoras (comprada ou  não) tem elegido homens como Marco Feliciano, Kátia Abreu e similares. 
Seguindo...Concorda-se que as mulheres hoje estão em grande números nas escolas e centros de formação universitários e que hoje ser cantora não lhe dá necessariamente o atributo de prostituta. Mas que muitas prostitutas também já não recebem o atributo como tal, já que a prostituição velada acontece muitas vezes dentro das próprias relações monogâmicas em que o casamento confere aquisição do contrato matrimonial, o controle sobre o corpo da mulher como propriedade. 
Controle esse ainda mantido pela  religião que abomina e sataniza as mulheres que abortam mesmo em caso de estupros degradantes de almas femininas . Controle da mídia burguesa que veicula imagens de corpos femininos para serem vendidos às mentes masculinas e femininas como dignas de serem consumidas, juntamente com os carros e motos, com as cervejas e mais uma gama sem número de produtos. 
Controle pelos pangadões  musicais que   reduzem às mulheres  a objetos sexuais . Inclusive aqueles cantados por mulheres que se acham poderosas quando na verdade estão a jogar água no moinho da opressão e confundem  tantas  outras mentes, reduzindo o poder das mulheres ao poder do pussy. Popozudas iludidas seguem criando conflitos entre mulheres da mesma classe trabalhadora, sob o hit " Beijinho no ombro", enquanto deveríamos estar nos unindo, TODAS, contra as opressões racistas, homofóbicas, patriarcais e capitalistas. 
Não menos alarmante, a violência de gênero segue sendo uma das expressões maiores da questão social e da ideologia machista na vida das mulheres. Os estupros coletivos borbulham no oriente médio  e no ocidente "civilizado" a exemplo do Caso de Queimadas ( Paraíba) e New Hit ( Bahia). Casos que chocaram a sociedade, todavia, não tiveram resoluções exemplares que precisam ter.

 Seguiria, listando, as inúmeras  situações que expressam a condição das mulheres nos dias atuais, mas essas linhas já apresentam alguns dos dilemas centrais.
 São as pistas de que precisaremos ainda de muitos 8 de março para , numa perspectiva revolucionária, suplantar um modelo de sociedade que tira a liberdade  de trabalhadores, mas sobretudo das mulheres trabalhadoras. 

 Por isso, seguiremos em luta até que todas sejamos livres!

 Ângela Pereira.