domingo, 7 de abril de 2013

AUTOCONHECIMENTO, RENASCIMENTO E MATURIDADE.


Estou a experimentar um momento bem interessante na vida.  Completei trinta anos no último dia 29 de março. Embora a data de aniversário e a idade tenha uma representação importante na vida, e, realmente está tendo na minha vida, e merece-se aos olhos de muitos, explosões de fogos de artifícios (para as/os exageradas/os) ou uma festa rodeada de pessoas com quem se tem cotidianamente contato, ou não, preferi a calmaria e a intimidade, sem notificações no facebook, por vezes, tão superficiais e protocolares, sem e-mails avisando aos outros de um possível encontro, sem expressões efusivas de uma vida popular, que não tenho. Triste? Para os que estão imersos em relações superficiais e, por vezes hipócritas sim, para mim não.
Recibi, sim, felicitações de pessoas que tem significação importante na minha vida. Não cabe aqui eu fazer referência a nomes e a intensidade dessa significação. Elas foram suficientes para eu ter a noção de quem se importa, de quem se interessa e de quem gosta de mim dentro do círculo de pessoas com quem convivo ou convivi. É certo ainda que diante do tamanho de informações que hoje guardamos, acabamos por selecionar determinadas informações e não memorizar outras como datas de aniversário. Há pessoas que não recordaram da data, mas que a relação de afeto no dia a dia, nas lembranças, nos desejos de felicidade e nas demonstrações de afeto, valem até mais que um “Parabéns” no dia do aniversário. Isso é o que importa.
Andam comentando de um isolamento e afastamento de minha parte. Reduzi significativamente o número de atividades com o que estava envolvida, sai de redes sociais e estou a selecionar por restrições financeiras e por interesse as atividades a que frequentar, para dedicar-me a um objetivo que nesse momento precisa de foco, determinação e motivação para ser atingido.  As experiências de vida que marcam minha memória (origem de classe e a dedicação familiar com quem sou tratada ao longo desses trinta anos), as exigências que a materialidade da existência me impõem, a contra-gosto, e o projeto de sociedade que defendo e em que acredito não me farão perder esse foco.
Seguir firme nos meus propósitos com questionamentos vindos de diversas partes, interpretações equivocadas, desinteressadas e algumas vezes maliciosas de pessoas que sabendo como entrar em contato comigo não o fazem, embora possam tornar o caminho às vezes chato, incômodo e dolorido, para quem nunca gostou de interferências desrespeitosas e de determinações externas à vontades próprias, torna o desafio, mais intenso e significativo na afirmação do que sou, do que quero para mim e para o mundo, como mulher negra de origem pobre; feminista, socialista e comunista em formação.  
É tempo de assertividade, aprofundamento e seletividade.
É como se estivesse a renascer.  Renascimento significa no dicionário Aurélio nascer de novo (na realidade ou na aparência); 2. Renovar; 3. Remoçar.
O prefixo (re-) tem uma intenção importante e necessária. Não parto do zero. As experiências que tive ao longo da vida são sempre tomadas como aprendizado. Não saio ilesa a elas. Não me servindo mais tento extrair delas aprendizados que juntamente com outros vão me compondo.
Esse renascimento tem a ver com a forma de encarar e resolver as coisas da vida. Há algum tempo atrás, cedia a algumas coisas pela possibilidade de agradar ou de não magoar os outros. Acabava me magoando. Havia ainda uma tendência de justificar-me por determinadas decisões. Essa postura pouco segura acaba dando espaço para as pessoas determinarem certos rumos da minha vida. Não estou mais disposta a repetir alguns padrões de comportamento. Isso não significa, entretanto, negar trocas de experiências e aceitar opiniões que contribuam com os meus objetivos. 
Em conjunto, a forma de lidar com os relacionamentos afetivos inter-sexuais, fortifica-se. Certas ilusões a mim não me cabem mais. Até estico a ponta do elástico para ver onde vai dar, mas pressentindo pelas experiências anteriores, certos comportamentos machistas  dos homens  e que tendencialmente posso sentir até aonde vai dar, são relativamente compreendidos e não me causam tanta dor como outrora.
Na desconstrução das verdades, de "falsas ilusões" muitas vezes existentes apenas no mundo romântico das mulheres, principalmente, é preciso viver os encontros, lidar maduramente com os desencontros, sabendo a hora de chegar e a hora de sair desapegadamente.  Na vida, seja nos relacionamentos fraternais seja nos relacionamentos amorosos e carnais, o que é preciso levar são as experiências boas que te fazem evoluir... É o gosto por aquele autor do outra/o que te fez interessar, é o sabor do vinho que o outra/o experimentara em outro país, é o som e a melodia de uma música que marcou a vida do outra/o... É preciso, sobretudo, nesses encontros perceber o quanto eles nos fazem bem o mal. O quanto eles não estão a nos colocar numa posição subalterna, submissa ou podem tendencialmente evoluir para a não reciprocidade. E quando a mente influenciada pelas histórias de contos de fada, pelas novelas de amor, pelos filmes e livros românticos nos fizerem cair em malhas de ilusão, tentar, sobretudo, viver o presente. Dói, mas também é delicioso descobrir que as histórias que não são nossas e que não nos cabem precisam ser devoradas.
Essa postura diante da realidade me coloca novamente à vista e nas mãos o amor ao estudo. Sempre gostei de estudar. Quando criança já era curiosa em relação às coisas e aos mistérios do mundo. Minha mãe costuma contar que eu ficava aos cantos da sala com o dedo na boca a observar as pessoas. Chupeio meu dedo polegar esquerdo já na barriga da minha querida mãe até os 9 anos de idade quando  parei de chupar por decisao própria. Depois de um tempo, o prazer de chupar o dedo foi interrompido pelas normas de comportamento sociais pré-estabelecidas; acabei seguindo-as, mas também não senti falta, ocupei esse espaço com outras ocupações. Diante dessa postura, o comentário da família é que não daria “nada nos estudos”. Acho que somente por provocação e por ir ao contrário dessa impressão, fiz exatamente o contrário.
Tinha eu alguma suposição de respostas, ou buscava respostas para certos acontecimentos de ordem biológica, física u química. Era uma criança metida, no sentido de me interessar pela conversa de adultos e de amigas da minha irmã mais velha.  Tinha a iniciativa de participar de algumas atividades mesmo sem ser convidada, é verdade que algumas dessas posturas, às vezes trouxeram prejuízos para minha mãe e meu pai, mas eram posturas provocadas pela necessidade de expansão e de ação.
Acabei me destacando na escola. Essa condição de destaque me colocava também em situações desagradáveis. Ora pela inveja de algumas pessoas, ora pelo preconceito, e muitas vezes pela aproximação interesseira e utilitarista.  Na adolescência, todo mundo queria fazer trabalhos escolares com a estudiosa, mas nada mais que isso à exceção de algumas poucas amizades que fizeram e que assim como eu tinham interesse por literatura, história e política e por quais hoje guardo uma profunda amizade. Quando se tratava de falar das roupas compradas (consumismo), das festas e baladas frequentadas e das paqueras, erámos excluídas. Não pautava minhas amizades na superficialidade e nem por futilidade, mas a sensação de exclusão social que também tinha relação econômica deixou em mim profundas marcas.
Um texto de significativa importância para mim nesse momento é do livro de Rubens Alves “Carta aos pais e adolescentes”. Num dos textos dele, o autor fala das maritacas e aos sabiás, referindo, respectivamente, aos adolescentes que andam em grupos para se sentirem populares e integrados e aos adolescentes mais introspectivos, quietos, inventivos e curiosos, que não andam em grandes grupos, mas que quando abrem a boca tem atenção em razão da propriedade com que falam sobre determinados assuntos. Seriam estes últimos os sabiás que quando abrem a boca, todos páram para ouvir os seus cantos.
Lidar então com determinadas questões não é novidade para mim. Da mesma forma, entender que determinadas condições e forma de encarar e viver a vida, diferentes da das maioria incomoda aos demais também não é novidade. A diferença agora é que não deixo mais mudarem os meus rumos e me entristecerem.

Nos três últimos anos, e, sobretudo, no ano que se segue, pela condição explicitada anteriormente vejo-me na necessidade de maior introspecção. Introspecção e solitude, estas que tem me feito amadurecer significamente, contribuído para me conhecer ainda mais, para saber em que preciso evoluir na condição de mulher negra pobre, feminista, socialista e comunista em formação para atingir os objetivos que quero, não apenas passando pela vida, mas deixando marcas.

“ Não vim ao mundo ‘à passeio’.”  “Nunca foi fácil e não seria fácil agora”. São algumas das expressões que sintetizam um pouco de mim nesse momento.

Ângela Pereira.

viernes, 5 de abril de 2013

Os impactos da reestruturação produtiva no trabalho no serviço público de saúde.


1.       Introdução

Este paper tem por objetivo realizar aproximações com referenciais teóricos a cerca da categoria trabalho de modo a identificar como no processo de reestruturação da produção capitalista tem atingido nos últimos anos o Estado Brasileiro e as políticas sociais, em especial a de saúde, e assim ter subsídios para analisar a flexibilização e precarização de trabalho no serviço público de saúde.
Trata-se de uma pesquisa exploratória de caráter bibliográfico a partir de referenciais teóricos clássicos sobre o tema, bem como indicações contidas no programa da disciplina Política Social do Mestrado Acadêmico em Serviço Social da UFPB.
O mesmo se justifica pela necessidade de se compreender as mediações existentes entre a reestruturação produtiva nos marcos da produção e da reprodução capitalista e identificar como essa incide na flexibilização e precarização do trabalho no serviço público de saúde.
Nesse sentido, realizaremos uma aproximação com as categorias de trabalho produtivo e improdutivo, delimitando posteriormente a caracterização do trabalho em serviços públicos de saúde e o papel que cabe a ele na divisão social e técnica do trabalho. 
Esse percurso teórico ajudará a compreender os rebatimentos da reestruturação produtiva nos serviços públicos de saúde e as inflexões dessas mudanças na flexibilização e precarização de trabalho nestes serviços, em especial na Estratégia de Saúde da Família.

2.      Desenvolvimento

2.2  O trabalho no setor saúde e o seu lugar na reprodução do capital.
Compreender o trabalho no setor saúde ao se propor a investigar como vem se dando as inflexões da reestruturação produtiva nos serviços públicos de saúde, coloca a necessidade de aproximação com o debate teórico que existe a cerca do trabalho produtivo e improdutivo.
Para Marx (1978) o trabalho produtivo é aquele que produz mais-valia, que produz mercadoria com capacidade de valorizar o capital, ou seja, que é unidade de valor de uso e de troca.
Por outro lado, trabalho improdutivo para Marx (1978) é o trabalho consumido pelo seu valor de uso e não como trabalho que gera valores de troca e que não produz mais-valia. Assim: “É produtivo o trabalhador que executa trabalho produtivo; e é produtivo o trabalho que gera diretamente mais-valia, isto é, que valoriza o capital” (pág. 157)
Marx (1978) afirma que “serviço não é, em geral, senão a expressão para o valor de uso particular do trabalho, na medida em que este não é útil como coisa, mas como atividade.” A afirmação indica que os serviços de forma geral são trabalhos improdutivos, uma vez que mesmos são trabalhos que não geram mais valia.
Carcanholo (1985) diverge de Marx na análise de que os serviços são improdutivos, defendendo que os trabalhadores de serviço não apenas produzem excedente como também o transferem de forma indireta.

Sem dúvida, eles produzem valor e caso não logrem vender seus serviços pelo valor produzido (coisa que tende a ser cada vez mais verdade no capitalismo atual), não só produzem excedente-valor como o transferem, pelo menos em parte, para seus clientes. (...) Aqueles profissionais produzem valor e excedente-valor que não é pago pelos que imediatamente usufruem que, se são trabalhadores, têm o valor da sua força de trabalho reposto ou ampliado. Não só o excedente, mas o próprio valor produzido pelos profissionais funcionários públicos reaparecerá nas mãos dos capitais que contratem os trabalhadores sem que lhes custe.” (pág. 6).

Ao se definir o trabalho no setor saúde como trabalho improdutivo não se retira o papel que o mesmo tem no tocante à reprodução da força de trabalho.
Assim enquanto política social do Estado, o trabalho no setor saúde, é responsável juntamente com outras politicas sociais pela tentativa de amenizar as expressões da questão social, bem como contribui com a reprodução da força de trabalho à medida que previne e recupera agravos à saúde de trabalhadores.
“A natureza da intervenção do Estado, em termos bastante empíricos, considerando-se o que se chama comumente de medidas de política social’ consiste na implantação de assistência, de previdência social, de prestação de serviços, de proteção jurídica, de construção de equipamentos sociais e de subsídios.” (FALEIROS, 1941, pág. 56)

Apesar das divergências em relação à caracterização do trabalho nos serviços públicos é possível identificar em pesquisas que as inflexões do processo de acumulação do capital e da reestruturação produtiva no trabalho nos serviços públicos assemelham-se havendo suas particularidades.

2.3  Impactos da reestruturação produtiva e da contra reforma do Estado no trabalho nos serviços públicos de saúde.

Com as sucessivas crises, acontecem várias alterações societárias, de modo a garantir a perpetuação do sistema. O destaque se dá à reestruturação produtiva. Vive-se, nos últimos anos, a intensificação de transformações no mundo do trabalho como resposta à crise do capital dos anos 1970, que repercutiram fortemente na classe que vive da venda da força de trabalho, bem como no seu movimento sindical e operário. Essas transformações se deram no processo produtivo, decorrentes do avanço tecnológico, da constituição de formas de acumulação flexível e dos modelos alternativos do binômio taylorismo/fordismo alternados para o toyotismo. As mudanças decorrem da concorrência intercapitalista, bem como da necessidade de controlar as tensões sociais da luta de classes (ANTUNES, 2010).
Nesse período de oscilações e incertezas, novas formas de organização industrial, da vida social e política são elaboradas, materializando-se num novo regime de acumulação, a acumulação flexível. Para Harvey,
A acumulação flexível [...] se apóia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional (1994, p. 140).

Novas ferramentas tecnológicas e organizacionais resultaram em novas formas de produção, num sistema produtivo mais “flexível” e “enxuto”, transnacionalizado, e em novas formas de circulação de mercadorias e serviços. É assim que o binômio taylorismo/fordismo, caracterizado, por exemplo, pela produção em massa de mercadorias, homogeneizada e verticalizada, pelo trabalho parcelar, fragmentado e repetitivo; pela extração extensiva da mais valia; pelo prolongamento da jornada de trabalho, foi sendo integrado ou substituído pelo toyotismo, caracterizado, por sua vez, pela autonomação; trabalho em equipe; pela polivalência; pelo gerenciamento participativo (kaisen); pela subcontratação; pelo regime Just-in-time (JIT), regime de produção de alta qualidade, em pouco tempo, com quantidade estritamente suficiente, acionada pela demanda, sem formação de estoque e sem tempo de espera e pelo (kanban) sistema de informação e transporte interno (ANTUNES, 2009; PINTO, 2007).
Além das alterações mencionadas, verificam-se repercussões significativas no mundo do trabalho, dentre elas, a crescente redução do proletariado fabril em decorrência da reestruturação, flexibilização e desconcentração do espaço físico produtivo; um incremento do novo proletariado através de um processo de precarização (tercerizados, subcontratados, part-time); a feminização acentuada do trabalho, precarizado e desregulamentado; o aumento de assalariados médios e do setor de serviços, mas já com taxas altas de desemprego; exclusão de jovens e idosos do mercado de trabalho dos países centrais; inclusão precoce e criminosa de crianças no mercado de trabalho e expansão do trabalho social combinado, em que trabalhadores de diversas regiões do mundo participam do processo de produção e de serviços. Essas alterações demonstram uma crescente fragilização, heterogeneização e complexificação da classe trabalhadora (ANTUNES, 2010).
O discurso difundido, a partir da nova organização capitalista é que a flexibilização tem por objetivo combater o desemprego. A análise de conceitos como a flexibilização, permite compreender que esta não significa solução para os índices de desemprego, trata-se, entretanto, da imposição da diminuição de salários e agravamento das condições inadequadas de trabalho. Neste sentido, a flexibilização pode ser considerada como a liberdade de demissão dos funcionários por parte das empresas quando lhes convier; a redução ou aumento de horário de trabalho quando as empresas julgarem necessário sem aviso prévio; a possibilidade de modificar os salários para valores menores do que os custos de reprodução da força de trabalho; a capacidade de a empresa alterar horários das jornadas de trabalho, subdividindo-as da maneira que lhes for mais conveniente e a possibilidade de realizar contratação de funcionários por tempo determinado ou subcontratar (VASAPOLLO, 2006).
Souza (2010) define a flexibilização como um processo que é determinado e condicionado por aspectos macroeconômicos relativos à nova fase de mundialização do capital e que se caracteriza pela fluidez dos mercados econômicos, atingindo, não só, a economia, como também, o mundo do trabalho. Segundo a mesma, as conseqüências dessa flexibilização têm se incorporado nos processos de trabalho, no mercado, na regulação das relações e nas formas de gestão do trabalho, sendo condição determinante para o trabalho precário atualmente. Como se nota, a flexibilização e a precarização do trabalho colocam-se como processos interligados e presentes no mundo do trabalho atual.
Há uma forte associação entre os fenômenos da flexibilização e precarização. Eles apresentam-se como fenômenos indissociáveis que se dão pari passo, estando o processo de flexibilização determinando as atuais configurações da precarização do trabalho. Desta forma, não devem ser confundidos, nem serem utilizados conceitualmente como fenômenos similares, iguais. Eles refletem a forte tendência de desregulamentação do trabalho e se expressam numa relação de determinação (SOUZA, 2010, p.47).

            Essa associação entre flexibilização e precarização permite uma compreensão mais abrangente desta última categoria, ampliando a identificação dela com condições de trabalho que não se restringem ao ambiente, a execução, a rotatividade nos serviços, a falta de isonomia salarial e a intensidade das jornadas de trabalho, mas dizem respeito a todo um contexto ampliado de organização e relações do trabalho pós-fordismo.
No Brasil, as alterações no mundo do trabalho tiveram impactos semelhantes aos já aludidos anteriormente.  De acordo com Alves (2000), somente na década de 1990, com uma maior ofensiva do capital e com a implementação do Neoliberalismo, é que o novo complexo de reestruturação produtiva ganhou força, incorporando ferramentas como a terceirização e caminhando para um “toyotismo sistêmico”, que busca atingir uma nova captura da subjetividade operária.
É nessa década também que se verifica com maior acentuação mudanças no Estado, que, para atender interesses da classe dominante, incorpora mais explicitamente o discurso neoliberal da “mão invisível” do mercado e reestrutura-se para acatar as determinações de organismos multilaterais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM), sob o argumento de que é preciso colocar o Brasil em patamares de desenvolvimento semelhantes aos dos países centrais (SOUZA, 2009).
 Como nos mostra Montaño e Durighetto,
[...] essa (contra) reforma se expressa nos ‘ajustes estruturais’ de orientação monetarista e neoliberal, nos planos econômico, social e burocrático-institucional, que os Estados nacionais,  a partir fundamentalmente das atuais pressões e exigências das instituições financeiras internacionais de Bretton Woods ( FMI, BM e Bird), tiveram que implementar como condição para receber impréstimos e os investimentos produtivos dos capitais financeiros e das multinacionais. A realização desses ‘ajustes’ é posta como passaporte para a inserção de um país na dinâmica do capitalismo contemporâneo (2010, p. 205).

Entender a (contra) reforma do Estado brasileiro é passo importante para compreender também as alterações que se processam nas políticas sociais, bem como nas condições de trabalho daqueles que atuam nos serviços públicos.
A crise do capital, a reestruturação produtiva e as novas necessidades de acumulação do capital foram fatores determinantes para a adoção de uma nova concepção de Estado e para se efetuar internacionalmente mudanças estruturais na condução de políticas sociais. Diante do argumento de que o Estado de bem–estar social foi incapaz de atender aos interesses do capital, elabora-se e executa-se o projeto neoliberal para os Estados Nacionais, orientando-se a realização de reformas que enfrentem à crise do capital.
O neoliberalismo nasceu logo depois da II Guerra Mundial, na região da Europa e da América do Norte onde imperava o capitalismo. Foi uma reação teórica e política veemente contra o Estado intervencionista e de bem-estar (ANDERSON, 1995, p. 9).

O projeto neoliberal é assim chamado porque reedita os ideários do liberalismo clássico de que o mercado é a instância mais adequada à alocação dos recursos de uma sociedade qualquer, motivo pelo qual não deveria haver interferência do Estado na economia.  Nesse sentido, a proposta política neoliberal está fundamentada na defesa da máxima liberdade dos mercados com maior eficiência na alocação de recursos e o conseqüente bem estar social. Conforme Carcanholo “[...] o neoliberalismo prega o Estado mínimo como uma forma de propiciar o livre funcionamento do mercado” (2002, p. 29).
As alterações que se dão no Estado configuram, na verdade, uma (contra) reforma, visto que se fundamentam no pensamento econômico neoliberal e na regressão das condições de vida e de trabalho e de participação política das maiorias. Como afirma Montaño & Durighetto,
A chamada “reforma do Estado” funda-se na necessidade do grande capital de liberalizar- desimpedir, desregulamentar- os mercados. Assim, concebe-se o desmonte das bases de regulação das relações sociais, políticas e econômicas. [...] tem assim um caráter político, econômico e ideológico que visa alterar as bases do “Estado de Bem- estar Social” e do conjunto da sociedade construídas no interior de um “pacto social-democrata”, no período do pós-guerra, e que conformam o “ Regime de Acumulação fordista-keynesiano”. Tem por objetivo esvaziar diversas conquistas sociais, trabalhistas, políticas e econômicas desenvolvidas ao longo do século XX e, portanto, no lugar de uma “reforma”, configura um verdadeiro processo de (contra) reforma do Estado (2010, p. 203).

A América Latina, mesmo não vivendo a experiência do Estado de Bem-estar social, sofreu influência das determinações neoliberais para as mudanças nos seus Estados, de modo a enfrentar a crise do capital. Em reunião denominada Consenso de Washington, realizada em novembro de 1989, organismos internacionais (FMI, Bird, Banco Mundial), representantes do governo norte-americano e de governos dos países latino-americanos avaliaram o processo de reformas nestes últimos e acordaram as “recomendações” do FMI de modo a intervir  em dez áreas:
1) disciplina fiscal, 2) redução dos gastos públicos,  3) reforma tributária, 4) juros de mercado, 5) regime  cambial de mercado, 6) abertura comercial, 7) eliminação de controle sobre o investimento direto estrangeiro, 8) privatização, 9) desregulamentação  das leis trabalhistas e 10) institucionalização da propriedade privada (Idem, 2010, p.211).

Para justificar as reformas propostas, os neoliberais se valeram da idéia de que, na “sociedade de escassez”, faz-se necessário o corte de gastos públicos principalmente, com a força de trabalho e com políticas sociais. Essa escassez teria relação com uma crise fiscal do Estado, na qual os gastos são superiores as receitas, resultando em déficit estatal e gerando uma inflação permanente com os cortes no orçamento (MONTAÑO & DURIGHETTO, 2010).
No Brasil, a reforma que introduziu significativas alterações no trabalho no serviço público foi a Reforma Bresser Pereira no governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC), em 1995, através do Ministério da Administração e da Reforma do Estado (MARE).
Segundo Behring, Bresser Pereira caracteriza a crise fiscal como resultante do “[...] déficit público, poupanças públicas negativas ou muito baixas, dívida interna e externa excessivas, falta de crédito do Estado [...] e pouca credibilidade do governo” (2003, p. 174).  Este recomenda a existência de um Estado pequeno e forte que realize como tarefas a garantia da propriedade e de contratos; a promoção do bem-estar e de direitos sociais; a realização de uma política industrial e de exportação de produtos.
É nas políticas sociais que se verifica uma forte desresponsabilização e desfinanciamento à proteção social, como conseqüência da alardeada crise fiscal do Estado e sob argumento de que estas são paternalistas, geradoras de desequilíbrio, de custo excessivo para o mercado. A maior orientação é a focalização das ações, com estímulos a fundos sociais de emergência, e a mobilização da solidariedade individual e voluntária, como também, a organizações filantrópicas e não governamentais (BEHRING, 2003).
A incorporação da concepção neoliberal na elaboração dessas políticas serve para escamotear a necessidade de mudanças estruturais na sociedade capitalista, limitando-se a reformas que elegem a pobreza e a maior “equidade” social, sem envolver modificações substantivas nas condições de produção de desigualdades sociais, como centro de atuação, sem, todavia, atender as necessidades reais de vida digna e de reprodução da força de trabalho.  A partir de programas sociais, os governos atuam na contenção social, sem atingir as raízes da questão social e atendendo às exigências do grande empresariado e dos organismos multilaterais de financiamento no pagamento da dívida externa. 
A focalização no campo da saúde representou a prestação de serviços direcionados ao atendimento às populações mais vulneráveis socioeconomicamente com “cestas básicas de saúde” e um incentivo à privatização pela descentralização de serviços, restrições a financiamentos, acesso a seguros privados e parcerias com as organizações sociais.
Gomes aponta que as ações dos governos brasileiros,
[...] fazem parte de uma estratégia mais ampla dos organismos multilaterais, como o BIRD e o Banco Mundial, os quais defendem a expansão de políticas sociais como meios de enfrentamento da pobreza e das desigualdades sociais, o que não significa promover e/ou ampliar sequer os níveis de equidade na sociedade (2011, p. 104).

Nesse sentido, volta-se a atenção para redimensionar os gastos com as políticas sociais, tendo a (contra) reforma repercussões no setor de serviços públicos. Isso implica mudanças estruturantes na condução da política social, bem como na gestão do trabalho.  Como a argumentação de que os principais gastos provinham do pagamento de folhas salariais e com os serviços públicos, atua-se em duas frentes. Como nos mostra Souza,
Seguindo esta tendência a política estatal para a saúde expressa no SUS, passa a incorporar duas estratégias fundamentais para implantação deste novo modelo gerencial: a desregulamentação do trabalho através da redução de gastos com força de trabalho, pelo mecanismo do desemprego ou a redução dos encargos com o trabalho formal e, a descentralização das ações de saúde que atribui ao município ações focalizadas de baixo custo e desloca a demanda por trabalho para estados e municípios (SOUZA, 2009, p.15).

Essas alterações presentes do Plano Diretor da Reforma do Estado (PDRE) significaram repercussões de grande impacto ainda sobre a classe trabalhadora como a desregulamentação das relações de trabalho e as mudanças no regime de emprego, decorrentes dela. Processaram-se mudanças no regime de contratação, através da flexibilização das formas de acesso ao trabalho, pela não exigência de concurso público, pela ausência de isonomia salarial e de planos de cargo e carreira e salários, não havendo, portanto, estabilidade no emprego (MARCONSIN, 2010; SILVA, 2006).
Para entender sobre quais suportes a flexibilização e a precarização do trabalho foram se tornando cada vez mais uma realidade para os trabalhadores dos serviços públicos é necessário identificar quais as mudanças na legislação trabalhista decorrentes da “Reforma Bresser Pereira” que foram significativas para determinar a condição atual desses trabalhadores. Tendo claro, ainda, que a desregulamentação do trabalho se dá, não apenas, pelas alterações jurídicas, legais e normativas, mas também pela implantação de uma lógica produtivista e mercantilizada, pela intensificação da exploração da força de trabalho, pela interferência na subjetividade dos trabalhadores, pela forte pressão de perda de emprego e direitos sociais.
Foram essas mudanças nas bases jurídicas que concederam ao Estado a possibilidade de flexibilização dos contratos de trabalho nos serviços públicos. Alterações que significaram grandes perdas para a classe trabalhadora no que se refere à estabilidade financeira, a segurança de emprego e à organização e mobilização social como acontece com os trabalhadores da Estratégia de Saúde da Família.
A ESF se apresenta atualmente como a principal estratégia estruturante do Sistema Único de Saúde (SUS), sendo uma aposta dos últimos governos para reorganizar a prática de atenção à saúde e reordenar a oferta aos serviços de saúde para a população, através da atenção básica. Visa a modificação de um perfil de modelo de atenção à saúde hospitalocêntrico (SOUZA, 2009).
O programa Saúde da Família foi formulado pelo governo federal em 1993 e implantado em 1994, tendo inicialmente a perspectiva de atender 32 milhões de pessoas incluídas na classificação de vulnerabilidade social do mapa da fome do Instituto de Pesquisa Aplicada (IPEA). Buscava possibilitar acesso a serviços de saúde para grupos marginalizados, regiões de baixa densidade populacional ou pequenos centros com condições deficientes de saúde.
Teve como precursor o Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) e agregou-se a ele a fim de assegurar maior resolutividade. Ao final de 1995, o programa se expande para várias regiões do país, sendo inserido como política do governo federal. E em 1996, o Ministério da Saúde define o PSF como estratégia de reordenamento dos serviços de saúde, não apresentando mais o argumento de que o serviço é direcionado para a população pobre (SILVA, 2006).
Para o Ministério da Saúde, o modelo predominante de assistência à saúde era considerado ineficiente e ineficaz, centrado na hospitalização e na realização de ações curativas de doenças, com uso de alta tecnologia. Assim, a fim de que se consolide uma nova forma de ofertar atenção à saúde, a partir de uma visão não apenas curativa, mas também de prevenção e promoção da saúde o que antes era Programa de Saúde da Família (PSF) se torna estratégia.
A ESF se caracteriza por ser a porta de entrada de um sistema hierarquizado e regionalizado de saúde, tendo sob sua responsabilidade um território definido, com uma população delimitada, partindo do conhecimento do perfil epidemiológico e demográfico de sua área de atuação, podendo intervir sobre os fatores de risco, aos quais a comunidade está exposta, de forma a oferecer às pessoas atenção integral, permanente e de qualidade. (BRASIL, 2009).
A estratégia é composta por uma equipe mínima de trabalhadores (um médico de família generalista, um enfermeiro, um auxiliar de enfermagem e agentes comunitários de saúde), podendo ser integrada também por uma equipe de saúde bucal (dentista, auxiliar de consultório dentário e técnico em saúde bucal) e tem como objetivos centrais prestar assistência integral, constante e resolutiva e de qualidade, de acordo com as necessidades de saúde da população adscrita, tendo como foco a família. Para atingir esses objetivos são exigidos dos trabalhadores, a abordagem multidisciplinar, processos diagnósticos da realidade, planejamento das ações e organização do trabalho no território, além do incentivo ao exercício do controle social. (PIRES et all, 2001).
Essa aposta integra, no bojo da (contra) reforma do Estado, uma série de políticas que visam reduzir os gastos com a saúde, focalizando a atenção à saúde pública para os pobres, enquanto, aos poucos, impulsionado pela correlação de forças entre os projetos político-ideológicos das classes sociais brasileiras e internacionais, vai se enfraquecendo o caráter público da totalidade do SUS. Expressa, portanto, a continuidade da política de saúde dos anos 1990, que dá ênfase à focalização, à precarização e à terceirização do trabalho (BRAVO, 2008).
 A partir das análises de Souza apud Pires (2001), podemos dizer que as condições de trabalho das ESF’s são precárias, no tocante à composição básica insuficiente das equipes; a insuficiência de profissionais com o perfil necessário ao programa; diversas formas de contrato de trabalho; diferenças na estrutura física das unidades, estando algumas inadequadas e em situação precária; sobrecarga de atendimento, gerando dificuldades em efetuar o planejamento e discutir a dinâmica do trabalho; interferência no fluxo e contrafluxo dos usuários e informações entre os diferentes níveis do sistema; diferentes formas de gestão das equipes de saúde da família; expectativas contraditórias e conflitos das equipes de saúde da família com os poderes locais; conflitos na relação entre o PSF e a população, quando as equipes não conseguem atender à demanda.
Diante de um quadro de precarização e de degradação das condições socioeconômicas da população em geral, dificilmente os objetivos da ESF anteriormente mencionados serão cumpridos. Sendo a ESF direcionada para a resolução de demandas de assistência à saúde da população mais pobre, que sofre de forma mais intensa as conseqüências da questão social, a intervenção dos profissionais é limitada e cada vez mais difícil de ser executada, considerando a falta de condições para execução das atribuições destes. Além disso, o alcance das ações da ESF é limitado tendo em vista a problemática da questão social que não se finda nesse sistema socioeconômico.
Esses trabalhadores da saúde encontram-se submetidos a jornadas estafantes de trabalho nas quais os mesmos tem que lidar com pressões psicológicas, advindas da exigência dos usuários em relação à oferta do serviço da rede de atenção completa e não apenas da atenção básica, pelo fato de esta ser a porta de entrada do SUS e estar em contato direto com o território e com as famílias; da cobrança da gestão com a produtividade e resolutividade (expressas nos indicadores de saúde) sem condições adequadas de trabalho nas USF’s (ambiente físico e acesso a insumos); do contato com o sofrimento dos usuários por eles atendidos, em condições degradantes de vida e adoecimento. 
São submetidos ainda à sobrecarga de trabalho que se expressa no número crescente de atendimentos realizados e aumento da população adscrita, na intensidade dos movimentos realizados repetidamente, na exposição a agentes químicos e físicos dentre outros aspectos.  Somam-se a isso preocupações referentes ao salário, a estabilidade financeira e a possibilidade de perda de emprego diante da grande rotatividade, limitação de tempo nos contratos de trabalho como prestador de serviço; a dificuldade de dialogar com sujeitos de formações técnicas, humanas e subjetividades diversas. A precarização do trabalho é somatizada, então, nos processos de adoecimento que se acumulam no histórico ocupacional desses trabalhadores.

3.      Conclusão
A aproximação com as categorias “trabalho produtivo e improdutivo” estimulam reflexões sobre particularidades dos rebatimentos que tem a reestruturação produtiva sobre o setor de serviços. Todavia há necessidade de incorporar outros referências teóricos que permitam compreender melhor as mediações que existem entre os processo de acumulação do capital e a reestruturação produtiva considerando a realidade brasileira.
Nesse sentido, segue o desafio de aprofundar as pesquisas bibliográficas que subsidiem o estudo do objeto “A flexibilização e a precarização do trabalho na Estratégia de Saúde da família.”


4.      Referências
 ____________ Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 2.ed.São Paulo: Boitempo, 2009, 287p.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Saúde na escola / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção. Diretrizes para o Núcleo de Apoio a Saúde da Família, Brasília: Ministério da Saúde, 2009. 160 p. il. – (Série B. Textos Básicos de Saúde) (Cadernos de Atenção Básica; n. 27).
BRAVO, M. I.; MENEZES, J. S. B. Política de Saúde no Governo Lula.in: Política de saúde na atual conjuntura: modelos de gestão e agenda para a saúde / Organizadores, Maria Inês Souza Bravo[et al.] 2. ed. Rio de Janeiro: UERJ, Rede Sirius/Adurfrj-SSind, 2008, 48 p.
CARCANHOLO, M.D. Abertura externa e liberalização financeira: impactos sobre crescimento e distribuição no Brasil dos anos 90. Tese de doutorado apresentada ao Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: o Autor, 2002.
CARCANHOLO, Reinaldo A. O trabalho produtivo na teoria Marxista. Disponível em http://rcarcanholo.sites.uol.com.br/Textos/Trabalhoprodutivo2.pdf. Acesso em 10 de novembro de 2012.
HARVEY, D. Condição Pós-moderna. Uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. 4 ed. São Paulo: Loyola, 1994,349 p.
MARX, K. Trabalho produtivo e trabalho improdutivo. In: A dialética do trabalho. Ricardo Antunes (org.) São Paulo: Expressão Popular, 2004.
MARCOSIN, C.; CAETANO, M. L. M. Neoliberalismo, Reestruturação produtiva e exploração do trabalho. In: Movimentos Sociais, Saúde e trabalho. Maria Inês Bravo (org.). Rio de Janeiro: ENSP/FIOCRUZ, 2010, 240 p.
SILVA, V. L. A. O fio da meada: Flexibilização e precarização do trabalho no Programa de Saúde da Família em João Pessoa-PB. Tese de Doutorado ao programa de pós-graduação em sociologia da Universidade Federal da Paraíba, 2006, 297 p.
SOUZA, M. A. S. O trabalho em saúde: os fios que tecem a (des)regulamentação do trabalho nos serviços públicos / Moema Amélia Serpa de Souza. – Recife: O Autor, 2009.
VASAPOLLO, L. O trabalho atípico e a precariedade. Elemento estratégico determinante do capital no paradigma pós-fordista. In: Riqueza e miséria do trabalho no Brasil/Ricardo Antunes (org.) São Paulo: Boitempo, 2006, 528 p.


Obs.: Paper escrito para a disciplina Política Social do Mestrado de Serviço Social da UFPB. Faço a ressalva de que esta versão não passou por correção da Professora Drª Claúdia Gomes. 

martes, 2 de abril de 2013

Ainda bem que existem bruxas...

                                           " as minhas heroínas atravessaram os céus levando bandeiras vermelhas."
                                                                                             Miguel Huertas Maestro

 As bruxas aqui não sobem em vassouras e saem fazendo feitiçarias e magias negras como ao longo da história foram descritas. 
Mulheres subversivas em todo o mundo foram chamadas e continuam sendo chamadas de bruxas com tom depreciativo por não aceitarem as regras impostas pela sociedade patriarcal  e conservadora, sendo queimadas em folgueiras e  apedrejadas em praça abertas.  (Vide o filme Joana D'arc http://www.youtube.com/watch?v=vg1hch-v8IE -. Apesar de ser motivada por um projeto religioso, a postura questionadora e de liderança de Joana D'arc, pode ser tomado como um exemplo em tempos tão limitadores das potencialidades e protagonismo feminino enquanto sujeitos históricos e sociais).

Segue um texto interessante sobre  a ousadia de mulheres na URSS que contrariando um modelo imposto e delimitador de seu papel na sociedade, enfrentaram preconceitos e pilotaram aviões nos confrontos entre países em guerra.

Faço uma ressalva que esta não se trata de um apelo à militarização e as guerras imprudentes que são hoje realizadas com o fim beligerante de recompor os ganhos do capitalismo em crise sobre alegação de enfretamento ao terrorismo e por disputas territoriais. Trata-se de destacar a capacidade que as mulheres tem de superar as limitações impostas pela construção social em que se determina papéis subalternos e restritos às mulheres sob alegação de que as mesmas compõem o sexo frágil e tem o papel de gerar a vida exclusivamente. E por que não, destacar o papel importante das mulheres numa revolução socialista não apenas como figurativas e reprodutoras da divisão sexual do trabalho, mas como protagonistas na luta de classes.



Bruxas na noite



26.Jan.13 

Entre as múltiplas faces do heroísmo manifestado pelo Exército Vermelho no decurso da 2ª Guerra Mundial – a Grande Guerra Pátria – existem muitos rostos de mulher, nomeadamente das mulheres piloto da aviação soviética. Devem ser recordadas não apenas como heroínas, mas também como exemplos de conquista da igualdade, que apenas a sociedade socialista poderá efetivamente concretizar.




“Para nós era simplesmente incompreensível que os pilotos soviéticos que nos criavam tantos problemas fossem … mulheres. Estas mulheres não temiam nada: vinham, noite após noite, nos seus desajeitados aviões e não nos deixavam dormir”.

(Hauptmann Johannes Steihoff, piloto de guerra nazi)



A Alemanha invade a União Soviética a 22 de Junho de 1941, e boa parte da aviação soviética foi destruída nos primeiros momentos. Enquanto os aviões nazis continuam a dominar os céus, milhares de jovens, muitos membros dos clubes civis de aviação, acorrem a alistar-se para lutar contra os ataques fascistas.
Muitas eram mulheres e depararam-se com uma rejeição inicial, mas em Outubro de 1941 já estavam, como recrutas, a treinar na base aérea do povo de Engels, a norte de Stalingrado. Sob as ordens da sua instrutora, a Major das Forças Aéreas Soviéticas Marina Raskova, as futuras aviadoras começaram a treinar.
Enfrentaram muitas dificuldades, a primeira das quais foi a desconfiança e desdém de alguns dos seus companheiros, que consideravam que eram de fiar e que, inclusivamente, recusavam voar juntamente com elas. Além disso, os uniformes estavam feitos para homens, e houve que fazê-los de novo para que elas os pudessem vestir; o mesmo aconteceu com as botas, que tiveram que ser cheias com papel de jornal para que se adaptassem ao pé, normalmente mais pequeno, das combatentes. Em muitos casos também os aviões tiveram de ser modificados pois as novas recrutas não chegavam aos pedais. E ainda tiveram que cortar o cabelo até um máximo «de duas polegadas», quando em muitas regiões da URSS era tradição deixá-lo crescer até à cintura. Embora nos nossos dias possa parecer trivial uma mulher cortar o cabelo muito curto, em 1941 isso revelava um compromisso total.
Treinavam mais de dez horas por dia, pois com as tropas alemãs a avançar na Frente Oriental, tinham que aprender em dias o que outros se podiam dar ao luxo de aprender em meses ou anos.
Depois de seis meses de duríssimos treinos, Marina Raskova enviou as jovens recrutas para a linha da frente em três regimentos: o 586º de Caças, o 587º de Bombardeamento e o 588º de Bombardeamento Nocturno.
As mulheres do 588º pilotavam aviões Polikarpov U-2, biplanos desenhados originalmente para treino e fumigação, que só tinham capacidade para duas bombas (pelo que tinham de fazer várias viagens) e não podiam comparar-se nem em velocidade nem em potência de fogo com os aviões alemães.
No entanto, rapidamente se tornaram num pesadelo para os aviadores nazis.
As combatentes do 588º mostravam grande capacidade de manobra dos U-2 e combinavam-na com tácticas extremamente arriscadas. Apareciam de noite, com o motor desligado para não serem detectadas pelo som, e faziam bombardeamentos de precisão e de fustigamento contra o exército alemão. Em combate contra os aviões nazis, estas aviadoras costumavam pôr-se no campo de tiro dos alemães enquanto as suas companheiras aproveitavam a distracção para apontar aos alvos.
Devido à sua habilidade e astúcia, e à ferocidade dos ataques, os soldados nazis começaram a chamá-lasNachthexen: as «Bruxas na Noite».
Em Fevereiro de 1943, o 588º Regimento reorganizou-se dentro do 46º Regimento de Aviação de Bombardeamento Nocturno, que em Outubro de 1943 era conhecido como a «Guarda de Taman», pelas vitórias conquistadas pelo Exército Vermelho na península de Taman.
Foi o regimento de mulheres com mais condecorações, e no seu apogeu chegou a ter quarenta tripulações duplas. No final da Guerra as Bruxas tinham feito cerca de 23.000 saídas e despejado aproximadamente três mil toneladas de bombas. Calcula-se que cada aviadora tenha feito mais mil missões de combate, e 23 delas foram condecoradas com o título de heroínas da União Soviética, a mais alta distinção da URSS.
Trinta das «Bruxas da Noite» morreram em combate; muitas delas eram muito novas, algumas eram mesmo adolescentes.

Marina Raskova

Nasceu numa família da classe média em 1913, filha de uma professora e de um professor de música. Apesar da intenção da família ser que fosse cantora lírica, ela começou a estudar química, e depois de se licenciar começou a trabalhar numa fábrica de tintas.
Um ano depois casou com o seu companheiro, Sergei, e tiveram uma filha chamada Tânia. Em 1931 começou a trabalhar como desenhadora no Laboratório de Aeronavegação da Academia da Força Aérea. Em 1933 tornou-se a primeira aviadora soviética com o título oficial, e um ano depois era instrutora da Academia Aérea Zhukovsky. Em 1935 divorciou-se do seu marido, e em 37, juntamente com Valentina Grizodubova, bateu o recorde feminino de voo sem escalas.
Em 1938, juntamente com outras aviadoras (Grizodubova e P. Osipenko), estabeleceu um novo recorde. Voaram desde Moscovo até Komsomolsk-no-Amur num voo de mais de 26 horas sem escalas, a bordo do Rodina («Pátria»). Marina não teve dúvidas em saltar do avião com pára-quedas, quando a visibilidade impedia a aterragem, tendo sido encontrada por um caçador em plena estepe. Nesse mesmo ano foram condecoradas com o título de Heroínas da União Soviética, sendo as primeiras mulheres a conquistar tal distinção.
Quando rebentou a Segunda Guerra Mundial na Frente Oriental, muitas mulheres com experiência civil de voo acorreram a alistar-se. No Exército Vermelho não havia nenhuma norma que impedisse as mulheres de combater na primeira linha mas, na prática deparavam-se com inúmeros obstáculos, sendo relegados para ocupações de tipo auxiliar.
Marina Raskova recorreu à sua autoridade como aviadora de fama mundial para mudar a situação, e com a aprovação directa de Stalin pôde convencer as autoridades militares a organizar e treinar três regimentos de aviação onde as mulheres seriam aviadoras, engenheiras e pessoal de apoio.
Raskova comandou pessoalmente o Regimento 587º de Bombardeiros, que em 1943 foi reorganizado como o 125º Regimento. Estas aviadoras, que combateram em Stalinegrado, voavam em modernos Petlyakov Pe-2, enquanto as outras unidades compostas por homens utilizavam aviões mais velhos.
Marina Raskova morreu a 4 de Janeiro de 1943, quando o seu avião se estatelou no chão devido a uma tempestade. Como estava numa missão militar foi considerada morte em combate e teve um funeral de Estado. As suas cinzas foram colocadas no Muro do Kremlin, e foi condecorada a título póstumo com a Ordem da Guerra Patriótica de Primeira Classe.

A Rosa Branca de Stalinegrado
«Era uma pessoa muito agressiva… Nascida para o combate», 

(Boris Eremin, Oficial da Força Aérea Soviética).

Lydia Litvak (1921-1943), de origem moscovita, entrou para um clube de aviação popular com catorze anos, e aos quinze fez o seu primeiro voo sozinha.
Um ano depois já tinha licença de instrutora de voo.
Quando começou a invasão da URSS pelos nazis, alistou-se numa unidade de aviação militar mas foi rejeitada. Alterou o seu historial de voo, acrescentou-lhe mais de cem horas de voo do que realmente tinha feito, e foi admitida na base aérea de Engels, próximo de Stalinegrado.
Ali foi treinada por marina Raskova e, seis meses depois já combatia no 587º Regimento de Caças, uma unidade exclusivamente composta por mulheres.
Fez os seus primeiros voos de combate no Verão de 1942, sobre Saratov. Em Setembro foi transferida, juntamente com outras seis aviadoras do 587º e algum pessoal civil para o 437º Regimento. Esta unidade, que até à sua chegada era exclusivamente composta por homens, combatia nos céus de Stalingrado. Três dias depois da sua chegada fez o seu primeiro derrube, tornando-se provavelmente na primeira mulher na História a derrotar um avião inimigo em combate. Poucos minutos depois derrubou um segundo caça que perseguia a comandante do seu esquadrão. O piloto nazi pôde saltar a tempo do avião e foi capturado pelas tropas soviéticas. Era Erwin Maier, um Ás alemão com onze vitórias, três vezes condecorado com a Cruz de Ferro. Maier pediu para conhecer ao piloto russo que o tinha superado e, quando o apresentaram a Lydia Litvak indignou-se, pensando que os oficiais soviéticos o estavam a vexar. Até ela descrever todos os pormenores do combate, o piloto nazi não aceitou que tinha sido derrubado por uma mulher.
Em finais de Setembro, à medida que iam conseguindo mais vitórias, Lydia e outras camaradas foram transferidas para o 9º Regimento de caças da Guarda, também em Stalingrado. Diz-se que, então, já estava pintado na fuselagem do seu caça uma flor branca, pelo que começou a ganhar o nome de Flor Branca de Stalingrado.
Pouco depois, Lydia e a sua companheira Katia Budanova foram novamente transferidas, desta vez para o 296º Regimento de Caças da Guarda (renomeado depois de 73º Regimento de Caças da Guarda). Aí, Lydia conseguiu o seu quinto derrube, tornando-se na primeira das duas únicas mulheres Ases na história da aviação militar (a outra foi a sua camarada de armas Budanova).
Poucos dias depois, em 23 de Fevereiro, foi condecorada com a Orem da Estrela Vermelha, promovida a subtenente, e indicada para um grupo de caças de elite chamado okhotniki («caçadores livres»). Nessa iniciativa, pares de pilotos veteranos movimentavam-se com mais liberdade que dentro do regimento, procurando objectivos de acordo com o seu próprio critério.
Em Março fez um ataque sobre um grupo de bombardeiros alemães e foi ferida por um dos caças que os escoltavam. Teve forças para derrubar outro dos caças, mas quando aterrou na sua base já tinha tido uma grave perda de sangue devido aos ferimentos.
Em Maio, o que tinha sido o seu companheiro de voo em muitas ocasiões, o Ás soviético Solomatin, morreu num acidente. Segundo as palavras posteriores da mecânica de Lydia depois da morte de Solomatin, «Litvak só queria voar em missões de combate».
Dez dias depois, Lydia apresentou-se como voluntária para derrubar um balão de observação alemão, utilizado para localizar objectivos para fogo de artilharia. A missão era extremamente arriscada: o balão estava defendido por dezenas de canhões antiaéreos que sempre tinha tido êxito a repelir os ataques da aviação soviética.
Apesar de ter tido dificuldades, Lydia foi capaz de calcular a hora precisa do dia em que podia aproximar-se do balão, utilizando a luz do sol para camuflar o seu caça, pelo que destruiu o dirigível alemão.
Em Junho foi nomeada comandante de esquadrão. Apesar de em meados de Julho ter sido novamente ferida e ter tido de realizar uma aterragem de emergência, rejeitou a baixa médica e poucos dias depois estava de novo a voar.
A 1 de Agosto saiu quatro vezes em combate no sector sul da Batalha de Kursk. Durante a quarta missão de voo, o seu grupo foi atacado de surpresa por um grupo de caças nazis, e o avião de Lydia foi visto pela última vez, desaparecendo por entre as nuvens, fumegando e perseguida por vários caças inimigos. Tinha 21 anos.
Lydia já tinha sido condecorada coma Ordem da Bandeira Vermelha, a Ordem da Estrela Vermelha e duas vezes com a Ordem da Guerra Patriótica. No entanto, os restos do seu avião nunca foram encontrados, e isso impediu que também se lhe concedesse a distinção máxima.
Não o foi durante décadas até os restos do seu avião terem sido encontrados e, finalmente, foi condecorada postumamente como Heroína da União Soviética.

Salve às que lutam

A crença de que o socialismo trará automaticamente a libertação da mulher deve ser afastada da cabeça dos revolucionários, mas tampouco se deve esquecer que a derrota do patriarcado só é possível dentro de um sistema em que a exploração económica da maioria por parte de uma minoria não seja permitida.
A Segunda Guerra Mundial foi um conflito atroz, e muitas mulheres tiveram o seu papel nos respectivos exércitos de cada território. A maioria delas foram relegadas para trabalhos administrativos, auxiliares ou de enfermagem. Apenas na União Soviética estiveram na primeira linha de combate. Mais de oitocentas mil mulheres combateram no Exército Vermelho como franco-atiradoras , artilheiras ou aviadoras; vinte mil mulheres foram condecoradas; oitenta e nove receberam a condecoração máxima: Heroína da União Soviética.
Nos Estados Unidos, a «terra das liberdades», as mulheres não pilotaram aviões de combate até 1993.
A crise capitalista em curso, a que ninguém consegue ver o fim, pode relegar muitas mulheres exclusivamente ao trabalho não remunerado, o que quer dizer que se agravará a sua dependência, sendo possível que acabem dependendo do suporte económico de um homem. Darão passos atrás na sua liberdade.
Vivemos tempos com cheiro a barricadas, e devemos fazer um esforço para combater as atitudes patriarcais dentro da esquerda revolucionária. Dizer que a repressão policial é mais terrível porque «batem nas mulheres” é relegá-las a uma posição de debilidade. Afirmar que as nossas companheiras não devem estar na primeira linha porque «não são tão fortes como um homem», é insultar milhares de anos de desenvolvimento da humanidade.
Ambos os argumentos se podem ouvir no sector da esquerda revolucionária. O patriarcado anda há centenas de anos a moldar as sociedades e as cabeças das pessoas, mas isso não é desculpa: é motivo para redobrar os esforços na luta.
As Bruxas da Noite não necessitaram de testosterona nem cromossomas XY para se colocarem na primeira linha. O capitalismo caminho lado a lado com a opressão patriarcal, e a sua ideologia dominante concentra-se em fazer amar o explorador e odiar o explorado. Devemos ter um espírito crítico, mas tal não quer dizer que devemos criticar o que o poder estabelecido queira.
A União Soviética não foi perfeita; não podia sê-lo. A crítica é necessária, mas sempre a partir da esquerda e, em caso algum, deve fazer o jogo do poder estabelecido ou converter-se em peça da engrenagem da propaganda imperialista. E se há muitos erros a aprender com a experiência soviética, também há muitos triunfos que reivindicar.
Com o socialismo não se eliminaram as contradições de género por artes mágicas, e vimos acima como muitas mulheres lutadoras foram inicialmente rejeitadas, tanto pelo Estado como pelos seus companheiros varões, mas não pode negar-se que foi feito um avanço.
A URSS do meio dos anos trinta era um país onde uma mulher como Marina Raskova podia decidir divorciar-se e tornar-se numa oficial militar de elevada patente; mais impressionante é que era um país que permitia que a mulher concebesse isso não como um milagre, mas como uma opção viável. Isto não surgiu do nada: foi o trabalho organizado de muitas militantes que permitiu haver tais avanços na União Soviética, deixando claro que a libertação das mulheres só pode ser fruto da sua própria luta, e acontecer num sistema em que a economia esteja ao serviço das pessoas e não o contrário.
A ofensiva ideológica do capitalismo esconde-nos os triunfos, para que não possamos recordá-los e agarrarmo-nos a eles, para que nos sintamos desligados e desligadas do passado, daquelas pessoas que lutaram. Não podemos permiti-lo.
Tal como a história dos povos lutadores, a história das mulheres lutadoras é inviabilizada pela classe dominante. É nosso dever recuperar a nossa história, a história das que não se renderam. Mulheres lutadoras procedentes de povos lutadores, como as Bruxas da Noite não podem ser esquecidas. Devem ser um exemplo.
Temos que lutar pelo futuro mas sendo herdeiras e herdeiros do passado, recuperando os nossos heróis e heroínas.
E as minhas heroínas atravessaram os céus levando bandeiras vermelhas.


* Miguel Huertas Maestro, espanhol, é estudante de Psicologia.

Tradução de José Paulo Gascão