viernes, 8 de marzo de 2013

Declaração da Marcha Internacional das Mulheres para o 8 de março 2013 - Dia Internacional das Mulheres



 Nós, mulheres do mundo, transformamos nossa dor em fortaleza.



 Nós, mulheres de todos os povos, idades, classes e sexualidade, resistimos à crescente criminalização que pesa sobre nós e os nossos protestos e propostas. As ruas e os demais espaços públicos são nossos! Organizamo-nos em movimentos sociais, sem nos sujeitarmos à pressão para que nos confinemos ao espaço doméstico. Seguimos em luta por leis progressistas que reforcem nossos direitos reais, apesar da violência dos governos e das instituições religiosas com as quais nos deparamos. Todas somos mulheres resistindo e celebrando os avanços que vamos obtendo. Somos todas mulheres filipinas celebrando o avanço da lei  de saúde reprodutiva!
Dizemos " Basta" à violência contra nós mulheres! Uma vez mais tomamos a iniciativa e as  ruas para protestar contra todas as formas de violência e a sua banalização em nossas sociedades. Denunciamos a violência como elemento estrutural do sistema patriarcal, neocolonialista e capitalista e instrumento de controle de nossas vidas, nossos corpos e de nossa sexualidade. Todas somos mulheres da Índia e do Bandladesh fazendo frente aos estupros e à violência, assim como à impunidade dos agressores. Todas somos mulheres maias rompendo o silêncio dos tribunais e exigindo justiça!  Todas somos  mulheres moçambicanas na vitória da luta pela aprovação da lei de violência doméstica!



Nós, mulheres indígenas seguimos lutando, mobilizando-nos em massa em nível local e internacional. Usando de forma criativa os instrumentos de luta de que dispomos, exigimos dos nossos governos que respeitem nossos direitos e os dos nossos povos e territórios.Todas somos mulheres B’laan das Filipinas, mulheres maias, xincas e mestiças guatelmatecas defendendo nossos territórios – nossas terras e nossos corpos da indústria mineira e hidroelétrica! Todas somos militantes de Idle no More e todas somos mulheres dos povos originários do Canadá, fazendo frente à discriminação e às injustiças históricas contra os povos autóctones!
Nós, meninas e jovens resistimos às ofensivas do patriarcado em nossas próprias famílias – onde as ideias de “apropriado” e “correto” restringem os nossos movimentos – e na sociedade em geral - onde o acesso à educação, à saúde reprodutiva e à saúde pública nos é negado ou limitado. Seguimos desafiando estas restrições organizando-nos, debatendo, mobilizando e dando respaldo à nossas batalhas. Seguimos dando dinamismo à nossa luta. Todas somos jovens paquistanesas indo à escola apesar das ameaças físicas que enfrentamos! Todas somos estudantes chilenas gritando “não” à privatização do sistema educativo e exigindo uma educação gratuita e de qualidade!
Nós, feministas, seguindo lutando pela autonomia dos nossos corpos, nossa sexualidade e fertilidade. Exigimos a legalização do aborto naqueles países onde ainda somos criminalizadas por exercer o direito de não ser mãe. Não aceitamos retrocessos em matéria de aborto nem de direitos reprodutivos, conseguidos nas nossas lutas das últimas décadas. Todas somos as milhares de mulheres da Turquia, insurgindo-nos contra as acusações governamentais que nos classificam de assassinas! Somos todas jovens europeias lutando contra as ofensivas sobre o direito ao aborto em todo o continente! Todas somos mulheres uruguaias, celebrando a legislação sobre o direito ao aborto no país, mas ao mesmo tempo mantendo-nos alertas frente ao controle em relação às mulheres que desejam exercer este direito e perante possíveis restrições ao mesmo!
Nós, activistas em sindicatos e partidos políticos desafiamos o sexismo e a misoginia manifestados por nossos irmãos de luta, pressionando permanentemente a introdução do nosso feminismo anticapitalista e anticolonialista e de base nos debates, declarações e lutas. Coletivamente, seguimos reforçando-nos, reforçando nossas alianças e reivindicações feministas. Todas somos mulheres nos espaços de convergência dos movimentos sociais – por exemplo, o Florença 10+10, Itália – afirmando nossas análises e reivindicações feministas!
Nós, todas as mulheres, somos cada vez mais rebeldes face à ofensiva conservadora e fundamentalista e à militarização de nossas comunidades. Somos todas mulheres do Mali, desafiando a opressão islâmica ao andar de moto, ao deixar nossos lares para desenvolver nossa vida diária nos espaços públicos e ao lutar contra as violações, a violência sexual e a impunidade dos agressores!
Todas somos europeias, desafiando os nossos governos a fazer frente às medidas de austeridade! Todas somos egípcias desafiando as ameaças graves de violência sexual cada vez que vamos protestar na Praça Tahrir!
Todas somos mulheres da Tunísia lutando pelo comprimento das reivindicações da revolução-trabalho, liberdade, dignidade e cidadania- e contra as tentativas de impor mecanismos de discriminação às mulheres desde a tenra infância (o pré-escolar não misto, o uso do véu no pré-escolar e a incitação ao casamento precoce)!
Nós, mulheres da Marcha Mundial das Mulheres estamos marchando neste 8 de março de 2013, como milhares de nós fizemos nas 24 Horas de Ação Feminista Através do Mundo, a 10 de Dezembro.
Numa onda de ação em todos os continentes estamos transformando a nossa dor em fortaleza.
Marcha Mundial das Mulheres

martes, 5 de marzo de 2013

Vídeos (I)









Discurso de colação de Grau- Fisioterapia UFPB 2008.1 ( Setembro de 2008)








Mobilização pelo fim da violência contra as mulheres em Queimadas e denúncia do Caso de Estupro Coletivo em Queimadas  com a vinda da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Violência contra as mulheres    (14/setembro/2012)




Participação em Guia do PSOL nas Eleições-2012 (Frente de Esquerda PSOL e CONSULTA POPULAR) para Prefeitura Municipal de João Pessoa (setembro 2012)






domingo, 3 de marzo de 2013

SOLIDARIEDADE REVOLUCIONÁRIA.Quanto vale a dignidade de um/a trabalhador/a?




POR NÃO SER RACIONAL RENUNCIAR A SER LIVRE.

Onde estão os grilhões invisíveis que te prendem ao solo?
Não vês, mas sentes o peso nas pernas.
E as mordaças transparentes que te impedem de gritar?
Não vês, mas te sufoca a voz.

E as vendas que te colocaram nos olhos?
Não vês, mas há alguma luz que atravessa o tecido.

Por não ser racional renunciar a ser livre.
E se te levantares?
Verás bem, mas te rasgarão a pele,
te pisarão e  te jogarão no  próximo carro de lixo.

Mas como não é racional renunciar a ser livre
 a verdade proletária hás de espalhar.

Ângela Pereira.

Companheiras e companheiros,

        Quanto vale a dignidade de um/a trabalhador/a? E a vida?  Há tempos ouso dizer que vale o quanto o capital consegue expropriar e oprimir, contrariando a idéia de que não “vale nada”.
O capital não é um corpo físico, não podemos pegá-lo, estrangulá-lo, queimá-lo como de verdade mereceria. Entretanto, ele (digo, a sua ideologia) penetra nos nossos poros, nossos olhos, nos nossos ouvidos, nos nossos ventres, nas nossas bocas e língua, impregna-se nas nossas mentes e suga impiedosamente a energia e a vida. É um parasita!
Coloca trabalhadores contra trabalhadores a serviço da desumanização progressiva.
Milhões de nós, enfeitiçados, circulam das suas casas, aos escritórios, às fábricas e aos shoppings como se nada estivesse errado. Outras/os, entretanto, apesar do sofrimento de uma vida marcada pela dor de ser trabalhador nesse sistema, não se ajoelham por não ser racional renunciar a ser livre:

Fim do mês no “país do carnaval” e na cidade do “pôr do sol mais oriental das Américas” vê-se mais uma cena dolorosa e indignante.
Marli, uma artesã sensível e com um bom nível de consciência crítica, que nos caminhos da vida foi empurrada pela necessidade de sobrevivência para o trabalho informal, resistindo a cooptação de um trabalho como prestadora de serviço, tentava vender mensageiros do vento, filtros dos sonhos, coqueirinhos de material reciclável e algumas garrafas e copos de água, próximo do Shopping Tambiá, no centro de João Pessoa. Foi abordada na manhã do dia 28 de fevereiro (quinta-feira) pelos “bombados” (nome usualmente dado pelos vendedores ambulantes aos fiscais), enquanto vendia suas mercadorias. Dois agentes solicitaram que a mesma “circulasse” na área, caso não o fizesse, seus materiais seriam apreendidos. Como não tinha condições de obedecer à ordem dos agentes, em razão da sua condição de saúde e dificuldade de transportar o seu carrinho pesado confeccionado com partes de geladeira, a caixa de isopor cheia de garrafinhas com água e seus artesanatos, a mesma falou que poderiam levar o material.
Pelo telefone a artesã tentou entrar em contato com um amigo para obter ajuda e entrar em contato com o Secretário de Desenvolvimento Urbano (SEDURB) Assis Freire, conhecido dela e conterrâneo da cidade de Belém, interior da Paraíba. Ao perceberem o telefonema, os agentes assumiram ainda mais a postura de autoridade, sendo grosseiros com a mesma.  Depois de algum tempo, repentinamente, a mesma é surpreendida pela abordagem truculenta, arrogante, machista e desumana de cerca de seis agentes de controle urbano que pegam os seus instrumentos de trabalho e colocam sobre uma caminhonete, deixando pelo caminho algumas mercadorias e danificando parte dos materiais entre eles, os óculos dela.
Mesmo emocionalmente abalada, Marli vai ao encontro do secretario Assis Freire para solicitar uma intervenção e o mesmo entrega-lhe o valor de 40 (quarenta) reais, apesar de não concordar com a situação, como estava com as contas de energia, água e aluguel atrasadas, ela se vê obrigada a aceitar, mas fala que necessita de emprego digno e não daquele tipo de “ajuda”. É orientada a ir buscar os materiais dela em setor da Guarda Municipal no dia seguinte (sexta-feira).
Procura ainda a Secretaria de Políticas para as mulheres e tenta falar com a Secretária Socorro Borges, mas não consegue. Sendo atendida por uma recepcionista que a orientou se cadastrar no empreender mulher. Foi orientada a tirar cópia de documentação, mas precisou dizer que não tinha dinheiro para poder sensibilizar a atendente a tirar a cópia da documentação dela e ser cadastrada. Marli diz ter se sentido invisível na secretaria.
No dia posterior, 1º de março (sexta-feira) estive com ela no setor da guarda municipal para reaver seus instrumentos de trabalho.  O ambiente parecia inadequado com pouca circulação de ar e com uma “energia pesada”. Tão brutalizante quanto à aparência dos trabalhadores ali presentes. O machismo paraiva no ar, saltava pelos olhos e saia com as palavras na saliva da boca dos homens e mulher ali presentes. Os primeiros atendimentos foram insensíveis, a sensação de impotência e irresolutividade eram veementes.  Até decidirmos entrar em contato com a secretaria da SEDURB e reivindicar a vinda do responsável pelo setor, Magalhães.
Somente com a chegada de Magalhães e com a escuta realizada por ele e pela psicóloga Jô nos sentimos escutadas e atendidas. Segundo os mesmos, ambos estão há apenas cerca de um mês no setor com a tarefa de tentar modificar  a forma de intervenção e a administração do setor. Magalhães e Jô assumiram o compromisso de encaminhar uma solução para o caso de Marli em conjunto com o Secretário Assis Freire.
Ficamos manhã e tarde lá entre escuta, averiguação de materiais e transporte dos mesmos para a oficina de Marli.  Com a impossibilidade de vender as mercadorias na rua, Marli retornou para casa sabendo que três dias sem a possibilidade de vender algo custará muito para a sua sobrevivência –“três leões não mortos por três dias”.
Quantas Marli’s, Maria’s, Joaõ’s e José’s estão em situação semelhante ou pior?
Marli recebe dinheiro do Bolsa Família, mas sabe que não é a solução para os seus problemas. Conhece na pele o papel coercitivo e consensuador do Estado.

Marli por saber que não é racional renunciar a ser livre não aceita ser explorada e escravizada por um trabalho como prestadora de serviço. Marli precisa de “emprego digno” e tempo para fazer seus mensageiros de ventos e filtros dos sonhos.

OBSERVAÇÃO: Enquanto Marli não consegue um “emprego digno” e recupera os rendimentos dos dias em que não pode estar na rua para vender seus artesanatos e algumas garrafas de água, precisa comer e pagar algumas contas.  Provisoriamente Marli precisa de ajuda financeira ou de doação de alimentos. Mas o que Marli e todas trabalhadoras e trabalhadores querem mesmo é “emprego digno”, condições para respirar sem sentir a dor da exploração e opressão.

Caso alguém possa contribuir com Marli, favor entrar em contato comigo pelo e-mail: anja.pereira@yahoo.com.br e telefones: (83) 98012570/87982170.

Ângela Pereira.
Trabalhadora.

lunes, 25 de febrero de 2013

Sobre o Lulismo.


Resenha Crítica              

SINGER, André Vitor. Introdução. Alguns temas da questão setentrional. in: Os sentidos do Lulismo: reforma gradual e pacto conservador/ André Vitor Singer. 1ª ed. São Paulo: Companhia das letras, 2012.

André Vítor Singer é brasileiro, filho do economista Paul Singer, nasceu em São Paulo no ano de 1958. Graduou-se em Ciências Sociais em 1980 e em Jornalismo em 1986 na Universidade de São Paulo (USP), onde também fez seu mestrado (1993) e o doutorado (1998) em Ciência Política. Atuou como secretário da redação do Jornal “Folha de São Paulo” e como Secretário de Imprensa do Palácio do Planalto, além de porta-voz da Presidência da República no primeiro mandato de Lula (2003-2007). Atualmente é professor Doutor do departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humana da Universidade de São Paulo e tem se dedicado a estudar o comportamento eleitoral do Brasil e Teoria Política Moderna.
Em seu livro “Os sentidos do Lulismo”, lançado no segundo semestre do ano de 2012, o autor apresenta o acúmulo dos estudos realizados e apresentados em vários artigos anteriores sobre um tema atual e controverso que tem interessado a um público acadêmico, mas também a sujeitos políticos de forma geral_ o lulismo.
Na introdução do livro, Alguns temas da questão setentrional, em que a questão setentrional é tida como “o estranho arranjo político em que os excluídos sustentavam a exclusão”, o autor apresenta a questão que para ele ainda está em aberto: “O lulismo incidirá sobre as contradições centrais do capitalismo brasileiro, colocando-o em patamar superior? ”

Para realizar uma aproximação à resposta da questão, sem o objetivo de respondê-la diante da complexidade do tema a que o autor se refere ao iniciar a introdução, afirmando que: “o Lulismo existe sob o signo da contradição. Conservação e mudança, reprodução e superação, decepção e esperança num mesmo movimento.” (pág. 9), Singer realiza um resgate de alguns aspectos da trajetória eleitoral de Lula e aspectos socioeconômicos dos seus governos.

Aponta que após eleições de 2002, no primeiro mandato, o governo Lula decidido a evitar o confronto com o capital, adotou uma política econômica conservadora com: aumento de juros; elevação na meta do superávit fiscal; corte no orçamento público; queda do poder de compra da população; queda de crescimento; aumento do desemprego; queda do rendimento médio do trabalhador. Afirma, entretanto, que ao final do seu segundo mandato no ano de 2010, o cenário é outro com queda da taxa de juros em dezembro de 2010; redução do superávit primário; com aumento do salário mínimo; com auxílio de 22 a 200 reais do programa Bolsa família; expansão do crédito e do padrão de consumo; crescimento do PIB e queda do desemprego.
Diante desse resgate, o autor apresenta vários questionamentos para tentar equacionar a questão apresentada no início da introdução:

O que teria acontecido nos dois quadriênios em que Lula orientou o Brasil? Confirmou-se o truncamento da acumulação e a desigualdade “sem remissão”, previstos por Oliveira, ou se entrou em fase de desenvolvimento com distribuição de renda, observada por Tavares? O país teria dado seguimento à vocação conservadora, que afogara, no passado, as possibilidades de desenvolvimento democrático, ou estariam certas as avaliações de que a aceleração do crescimento e a redução da desigualdade inauguravam etapa distinta? E, caso estivessem corretas as perspectivas otimistas, como teria sido possível destravar a economia e reduzir a iniquidade sem radicalização política, numa transição quase imperceptível do viés supostamente neoliberal do primeiro mandato para o reformismo do segundo? (SINGER, 2012, p. 12 e 13)


Singer (2012) ao examinar a trajetória eleitoral de Lula, a partir de dados das últimas eleições afirma ter havido uma mudança do perfil de eleitores deste, sendo preservadas ainda algumas características para os eleitores do Partido dos Trabalhadores (PT). Nas eleições de 2002, os eleitores de Lula tinham o grau de escolaridade mais elevado. Entretanto, o que vai se observando é que nas eleições de 2006, houve uma mudança no perfil do eleitorado, sendo estes em maioria de baixa renda, que para o autor se incluem no subproletariado[1].
Essa mudança que estabeleceu a separação entre ricos e pobres, a que o autor denomina de “realinhamento eleitoral”, teria iniciado já após as eleições de 2002, quando no mandato houve uma orientação para se adotar políticas que visassem o combate à pobreza, como se observa no trecho abaixo:
Teria havido, a partir de 2003, uma orientação que permitiu, contando com a mudança da conjuntura econômica internacional, a adoção de políticas para reduzir a pobreza — com destaque para o combate à miséria — e para a ativação do mercado interno, sem confronto com o capital. Isso teria produzido, em associação com a crise do “mensalão”, um realinhamento eleitoral que se cristaliza em 2006, surgindo o lulismo. (SINGER, 2012, p. 13)

A expressão “realinhamento eleitoral”, de acordo com o autor, teria sido criada nos Estados Unidos para nomear a mudança de setores do eleitorado que definem um ciclo político longo. Explica que a ele interessa o uso do termo no sentido de apontar uma agenda de longo prazo definida por essa mudança num bloco de eleitores.

O meu objetivo era chamar a atenção para as importantes mudanças que se divisavam nos dados relativos à eleição de 2006, alterações capazes de “definir um novo tipo de política, um novo conjunto de clivagens, que pode, então, durar por décadas”. No caso brasileiro, a agenda desse possível realinhamento é, a meu ver, a redução da pobreza. (SINGER, 2012, p. 13)

Singer no artigo “Lulismo e seu futuro” compara esse fenômeno com o que aconteceu nos Estados Unidos com a eleição de Franklin D. Roosevelt quando da adoção do New Deal, como uma política para enfrentar a crise de 1929. Em outro texto, Raízes sociais e ideológicas do Lulismo, Singer (2009) explicita melhor quais teriam sido os fatores que contribuíram para esse realinhamento. Dialogando com outros autores, o cientista político elenca não apenas o fortalecimento e ampliação do programa Bolsa Família, atingindo especialmente as regiões do Norte e Nordeste, onde se encontram os “bolsões de pobreza”, mas também o aumento do poder de consumo das camadas mais pobres da população, o aumento no salário mínimo; a concessão de crédito consignado para os aposentados, bem como a criação do Benefício de Prestação Continuada (BPC) para a população idosa e pessoa com deficiência.  Esses fatores teriam em conjunto contribuído para a aprovação do governo entre a população de baixa renda e interferindo na mudança do perfil do eleitorado de Lula.
Assim, afirma o autor que o Lulismo se dá com o encontro de uma liderança com o subproletariado associado a uma política de redução da pobreza como agenda do realinhamento:


Em suma, foi em 2006 que ocorreu o duplo deslocamento de classe que caracteriza o realinhamento brasileiro e estabeleceu a separação política entre ricos e pobres, a qual tem força suficiente para durar por muito tempo. O lulismo, que emerge junto com o realinhamento, é , do meu ponto de vista, o encontro de uma liderança, a de Lula, com uma fração de classe, o subproletariado, por meio do programa cujos pontos principais foram delineados entre 2003 e 2005: combater a pobreza, sobretudo onde ela é mais excruciante tanto social quanto regionalmente, por meio da ativação do mercado interno, melhorando o padrão de consumo da metade mais pobre da sociedade, que se concentra no Norte e Nordeste do país, sem confrontar os interesses do capital. (SINGER, 2012, p. 15)



Fazendo referência a Caio Prado Júnior e a Celso Furtado, o autor resgata a tese de que as dificuldades para o desenvolvimento do país estavam relacionadas à grande massa de miseráveis ou “sobrepopulação trabalhadora superempobrecida permanente” de qual a população brasileira é composta e de que para romper com o ciclo vicioso do atraso seria preciso fortalecer o mercado interno, criando condições de sobrevivência, de investimento e de emprego.

Para Celso Furtado e Caio Prado Jr., as virtualidades e empecilhos que tinha a nação para romper o círculo vicioso do atraso estavam vinculados à existência da massa de miseráveis no país. (...) A miséria anulava a possibilidade de surgir um setor industrial voltado para o mercado interno. Sem ter emprego, a massa miserável tornava-se uma espécie de “sobrepopulação trabalhadora superempobrecida permanente”. Seria necessário elevar as condições de existência das camadas mais pobres, superando a “situação de miserabilidade da grande massa da população do país, que deriva em última instância da natureza de nossa formação histórica”, para iniciar um círculo virtuoso, pensava Caio Prado. Ao fazê-lo, o mercado interno ampliado estimularia a criação de investimentos e empregos, rompendo finalmente o círculo vicioso anterior. (SINGER, 2012, p. 16 -17)

A análise do autor é que a política de redução da pobreza iniciada no Governo Lula atingiu sobremaneira o subproletariado, interferindo no ciclo vicioso descrito por Celso Furtado e por Caio Prado a partir da introdução de mudanças estruturais e que a conjuntura favorável dos anos de 2003 a 2008 teria contribuído para a construção do Lulismo, como se observa no excerto abaixo:

O lulismo partiu de grau tão elevado de miséria e desigualdade, em país cujo mercado interno potencial é expressivo, que as mudanças estruturais introduzidas, embora tênues em face das expectativas radicais, tiveram efeito poderoso, especialmente quando vistas da perspectiva dos que foram beneficiados por elas: o próprio subproletariado. A conjuntura econômica mundial favorável entre 2003 e 2008, não só por apresentar um ciclo de expansão capitalista como por envolver um boom de commodities, ajudou a produzir o lulismo. No entanto, foram as decisões do primeiro mandato, intensificadas no segundo, que canalizaram o vento a favor da economia internacional para a redução da pobreza e a ativação do mercado interno. Lula aproveitou a onda de expansão mundial e optou por caminho intermediário ao neoliberalismo da década anterior — que tinha agravado para próximo do insuportável a contradição fundamental brasileira — e ao reformismo forte que fora o programa do PT até as vésperas da campanha de 2002. O subproletariado, reconhecendo na invenção lulista a plataforma com que sempre sonhara — um Estado capaz de ajudar os mais pobres sem confrontar a ordem —, deu-lhe suporte para avançar, acelerando o crescimento com redução da desigualdade no segundo mandato, e, assim, garantindo a vitória de Dilma em 2010 e a continuidade do projeto ao menos até 2014. (grifo meu) (SINGER, 2012, p. 21).


O autor parece muito otimista com as mudanças ocorridas nos dois mandatos do governo Lula. Embora faça a ressalva quanto às respostas para sua pergunta central, dá indicativos de aposta nas ações dos governos Lula. É bem verdade que Lula exerceu um papel importante na história brasileira à medida que aproveitou as contradições impostas pela conjuntura das quais a classe trabalhadora pode se valer, entretanto, ao meu ver, é equivocado considerar mesmo que introdutórias, as ações desse período como mudanças estruturais.
O primeiro mandato do governo manteve orientações neoliberais, reforçando as orientações do Banco Mundial pelo Consenso de Washington, numa perspectiva focalizadora e fragmentada de políticas sociais como se verificou, por exemplo, fortemente na saúde pública.

Como continuidade da política de saúde dos anos noventa, destaca-se a ênfase na focalização, na precarização, na terceirização dos recursos humanos, no desfinanciamento e a falta de vontade política para viabilizar a concepção de Seguridade Social. (BRAVO, p. 18)

E no segundo, não diferente, seguiu-se o receituário de diminuição da pobreza como foco e fim em si. É verdade que mudanças estruturais não se fazem de assalto, entretanto não se verificou mudanças em setores fundamentais que necessitam de reformas estruturais como a Reforma Agrária, por exemplo.
No campo da Assistência Social, o Programa Bolsa Família cumpre o papel da assistencialização da política em detrimento da proteção social através da Previdência e seguridade Social.


Na impossibilidade de garantir o direito ao trabalho, seja pelas condições que ele assume contemporaneamente, seja pelo nível de desemprego, ou pelas orientações macro-economicas vigentes, o Estado capitalista amplia o campo de ação da assistência social. As tendências da Assistência Social revelam que além dos pobres, miseráveis e inaptos para produzir, também os desempregados passam a compor sua clientela. (MOTA, 2008, pág. 8)
           
A valorização da assistência em detrimento da seguridade social não avança no sentido da resolução dos problemas estruturais, senão no estímulo a personificação, a mistificação das ações e a criação de uma dependência, deseducando a classe trabalhadora.
             Assim o Lulismo pode ser visto sobre outra perspectiva, como proposta de gerenciamento do Estado dentro da ordem e de manutenção como força política no governo.


O lulismo pode ser compreendido como uma tentativa de gerenciamento do Estado e da governabilidade política. Refere-se, portanto, ao campo estrito da engenharia política, não se constituindo num projeto de desenvolvimento. Enquanto modelo gerencial, o lulismo possui uma natureza sistêmica, voltada para sua própria existência, ressentindo-se de impasses exógenos, não previstos. Em outras palavras, possui uma ação marcada pelo pragmatismo que objetiva sua manutenção e reprodução enquanto força política. (RICCI, 2004, p. 171)



Embora o texto em análise traga para o debate reflexões importantes sobre a movimentação da classe trabalhadora nos últimos processos eleitorais, mesmo que fazendo a ressalva de não se ter pretensão a dar respostas finalizadas de um processo em curso, o autor se arrisca a fazer observações complicadas que precisam de maiores estudos e acompanhamento da realidade.

REFERÊNCIAS

BRAVO, Maria Inês Souza e MENEZES, Juliana Souza Bravo. A saúde nos governos Lula e Dilma: algumas reflexões. In: Saúde na atualidade: por um sistema único de saúde estatal, universal, gratuito e de qualidade / Organizadoras, Maria Inês Souza Bravo, Juliana Souza Bravo de Menezes. – 1.ed. – Rio de Janeiro : UERJ, Rede Sirius, 2011. 76 p.

MOTA, Ana Elisabete. (org.) O fetiche da Assistência Social. in: O Mito da Assistência Social: Ensaios sobre o Estado, Política e Sociedade. 2. ed. ver. e ampl. São Paulo: Cortez, 2008.

RICCI, Rudá. Lulismo: três discursos e um estilo. 2004. Disponível em http://www.pucsp.br/neils/downloads/v15_16_ruda_ricci.pdf Acesso em 18 de fevereiro de 2012.

SINGER, André Vitor. Raízes sociais e ideológicas do Lulismo. Disponível em http://novosestudos.uol.com.br/acervo/acervo_artigo.asp?idMateria=1356 . Acesso em 11 de fevereiro de 2013.
____________ Introdução. Alguns temas da questão setentrional. in: Os sentidos do Lulismo: reforma gradual e pacto conservador/ André Vitor Singer. 1ª ed. São Paulo: Companhia das letras, 2012.

___________ O lulismo e o seu futuro. Disponível em http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-49/tribuna-livre-da-luta-de-classes/o-lulismo-e-seu-futuro. Acesso em 10 de fevereiro de 2013.





[1] O termo subproletariado é cunhado pelo economista Paul Singer para denominar uma fração da classe trabalhadora que “oferece a sua força de trabalho no mercado sem encontrar quem esteja disposto a adquiri-la por um preço que assegure sua reprodução em condições normais”. Estão nessa categoria “empregados domésticos, assalariados de pequenos produtores diretos e trabalhadores destituídos das condições mínimas de participação na luta de classes”. Para encontrar uma maneira de quantificálos, Singer usou informações sobre ocupação e renda fornecidas pela PNAD de 1976, concluindo que seria razoável considerar subproletário os que tinham renda de ate um salario mínimo per capita e metade dos que tinham renda de ate dois salários mínimos per capita. (SINGER, 2009, p. 98);

sábado, 16 de febrero de 2013

29 beijos




Eu não quero, não quero mais "preoccupations" comigo


E nem de leve águas passadas, canto e recanto de lágrimas no meu coração

Eu não quero não

Espero, espero
Espero lhe ver, lhe encontrar

Tenho 29 beijos pra lhe dar
Tenho 29 beijos pra lhe dar
Tenho 29 beijos pra lhe dar


Novos Baianos



domingo, 10 de febrero de 2013

" A Revolução dos Bichos" de George Orwell.


Socializo uma sugestão de leitura e de filme para quem ainda não teve a oportunidade de ver.

Segue uma síntese para dar vontade de ver o filme e ler o livro.

" O sonho de um velho porco de criar uma granja governada por animais, sem a exploração dos homens, co cnretiza-se com uma revolução. Como acontecem com as revoluções, a dos bichos também está fadada à tirania, com a ascensão de uma nova casta ao poder. Nesta fábula feita sob medida para a Revolução Russa, todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que outros.

Síntese

Num belo dia, os animais da fazenda do Sr. Jones se dão conta da vida indigna a que saõ submetidos: eles se matam de trabalhar para os homens, lhes dão todas as suas energias em troca de uma ração miserável, para ao final serem abatidos sem piedade. Liderados por um grupo de porcos, os bichos então expulsam o fazendeiro de sua propriedade e pretendem fazer dela um Estado em que todos serão iguais.
Logo começam  as disputas internas, as perseguições e a exploraçaõ do bicho pelo bicho, que farão d agranja um arremedo grotesco da sociedade humana.

Punlicada em 1945, A Revolução dos Bichos foi imediatamente interpretada como uma fábula satírica sobre os descaminhos da Revolução Russa, chegando a ter sido utilizada pela propaganda anticomunista.
A novela de George Orwell de fato fazia uma dura crítica ao totalitarismo soviético; mas seu sentido trasncende amplamente o contexto do regime stalinista.
Mais do que nunca esta pequena obra-prima de ficção inglesa parece falar aos nossos dias, quando a concentração de poder e de riquezas, a manipulação da informação e as desigualdades sociais parecem atingir um ápice histórico. ( Fonte: http://vestibular.uol. com.br/resumos-de-livros/a-revolucao-dos-bichos.jhtm)

Link do filme completo:http://www.youtube.com/watch?v=I5KI0b2H6ks




Link do livro:

http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/animaisf.pdf




sábado, 9 de febrero de 2013

"A Fonte das Mulheres". O filme.


Para interessadas/os que não assistiram segue uma boa sugestão de filme:  "A fonte das Mulheres."

Um filme que mostra a realidade das mulheres no oriente*, cercada de violência e de opressão, que precisam explorar formas diversas de resistência e de sublevação para serem consideradas seres humanos e respeitadas como tal.

Segue a sinopse:

Em um pequeno vilarejo, situado entre o Norte da África e o Oriente Médio, as tradições islâmicas são seguidas a risca. Entre elas, a existência da mulher como procriadora é regra básica, mas existe uma que faz com que elas sejam as responsáveis por buscar água em um local distante e de difícil acesso, restando para os homens a tarefa de matar o tempo bebendo e falando da vida. Certo dia, Leila (Leila Bekthi), uma das mais jovens e alfabetizadas do grupo, resolve que a melhor maneira de mudar esse cenário, fazendo com que os homens assumam esta tarefa, é cortar o que eles mais gostam: o sexo. A polêmica decisão do grupo acaba interferindo nas relações entre os habitantes e provocando provocar uma verdadeira revolução cultural no povoado e mudando para sempre as suas vidas. ( Fonte: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-178832/)


 *Com os comentários do companheiro Félix Jácome :

"No oriente não: no mundo muçulmano! Senão nós caimos naquela dicotomia ocidente x oriente e nos damos mal!
Outro detalhe é que a história do filme é "baseada" numa peça de teatro de Aristófanes, teatrólogo da Grécia Antiga (essencialmente a idéia das mulheres se reunirem pra fazer uma greve de sexo contra os homens). A peça chama-se Lisístrata."


Link: ( filme completo dublado)

http://www.youtube.com/watch?v=JOXfXbAq-Ls





viernes, 8 de febrero de 2013

É ele.O mundo.

Percorrem olhos esguios os cantos do mundo. 
Quer encontrar algo,
Não sabe o quê. 

Dois minutos depois fita ao fundo,
Sabe muito bem o que quer.
É ele. O mundo.

Não estivesse distante.

08 dias contados.

Ângela Pereira.