viernes, 8 de febrero de 2013

É ele.O mundo.

Percorrem olhos esguios os cantos do mundo. 
Quer encontrar algo,
Não sabe o quê. 

Dois minutos depois fita ao fundo,
Sabe muito bem o que quer.
É ele. O mundo.

Não estivesse distante.

08 dias contados.

Ângela Pereira.

domingo, 3 de febrero de 2013

O que esperamos de um relacionamento: Paz...













(Fonte: http://www.mulher30.com.br)

Balzac batendo à porta.

A mulher de 30.
Por Honoré de Balzac*

“Tome a mesma moça aos 20 e aos 30 anos. No segundo momento ela será umas sete ou oito vezes mais interessante, sedutora e irresistível do que no primeiro.
Ela perde o frescor juvenil, é verdade. Mas também o ar inseguro de quem ainda não sabe direito o que quer da vida, de si mesma e de um homem. Não sustenta mais aquele ar ingênuo, uma característica sexy da mulher de 20. Só que isso é compensado por outros atributos encantadores que reveste a mulher de 30.
Como se conhece melhor, ela é muito mais autêntica, centrada, certeira no trato consigo mesma e com seu homem. Aos 30, a mulher tem uma relação mais saudável com o próprio corpo e orgulho da sua vagina, das suas carnes sinuosas, do seu cheiro cítrico. Não briga mais com nada disso. Na verdade, ela quer brigar o menos possível. Está interessada em absorver do mundo o que lhe parecer justo e útil, ignorando o que for feio e baixo – astral. Quer é ser feliz. Se o seu homem não gosta dela do jeito que é, que vá procurar outra. Ela só quer quem a mereça.
Aos 30 anos, a mulher sabe se vestir. Domina a arte de valorizar os pontos fortes e disfarçar o que não interessa mostrar. Sabe escolher sapatos e acessórios, tecidos e decotes, maquiagem e corte de cabelo.  Gasta mais porque tem mais dinheiro. Mas, sobretudo, gasta melhor. E tem gestos mais delicados e elegantes.
Aos 30, ela carrega um olhar muito mais matador quando interessa matar. E finge indiferença com muito mais competência quando interessa repelir. Ela não é mais bobinha. Não que fique menos inconstante. Mulher que é mulher,se pudesse, não vestiria duas vezes a mesma roupa nem acordaria dois dias seguidos com o mesmo humor. Mas, aos 30 ela,já sabe lidar melhor com esse aspecto peculiar da sua condição feminina. E poupa (exceto quando não quer) o seu homem desses altos e baixos hormonais que aos 20 a atingiam e quem mais estivesse por perto, irremediavelmente.
Aos 20, a mulher tem espinhas. Aos 30, tem pintas, encantadoras trilhas de pintas, que só sabem mesmo onde terminam uns poucos e sortudos escolhidos.
Sim, aos 20 a mulher é escolhida. Aos 30, é ela quem escolhe. E não veste mais calcinhas que não lhe favorecem. Só usa lingeries com altíssimo poder de fogo. Também aprende a se perfumar na dose certa, com a fragrância exata.
A mulher de 30, mais do que aos 20, cheira bem, dá gosto de olhar, captura os sentidos, provoca fome. Aos 30, ela é mais natural, sábia e serena. Menos ansiosa, menos estabanada. Até seus dentes parecem mais claros; seus lábios, mais reluzentes; sua saliva, mais potável. E o brilho da pele não é a oleosidade dos 20 anos, mas pura luminosidade.
Aos 20 ela rói as unhas. Aos 30, constrói para si mãos plásticas e perfeitas. Ainda desenvolve um toque ao mesmo tempo firme e suave. Ocorre algo parecido com os pés, que atingem uma exatidão estética insuperável. Acontece alguma coisa também com os cílios, o desenho das sobrancelhas, o jeito de olhar. Fica tudo mais glamouroso, mais sexualmente arguto.
Aos 30, quando ousa, no que quer que seja, a mulher costuma acertar em cheio. No jogo com os homens já aprendeu a atuar no contra – ataque. Quando dá o bote é para liquidar a fatura. Ela sabe dominar seu parceiro sem que ele se sinta dominado. Mostra a sua força na hora certa e de forma sutil.
Não para exibir poder, mas para resolver tudo ao seu favor antes de chegar ao ponto de precisar exibi-lo. Consegue o que pretende sem confrontos inúteis. Sabiamente, goza das prerrogativas da condição feminina sem engolir sapos supostamente decorrentes do fato de ser mulher.”
Diria que este texto é uma versão mais apimentada da mulher de 30. Na cama, elas dão um banho em qualquer uma de 20. E ainda existem os homens que acham que trocar uma de 30 por uma de 20, é um bom negócio. Não sabem o que estão perdendo. O fogo e o vigor da mulher de 30, é imbatível.



*Honoré de Balzac  foi um escritor francês de romances clássicos que está entre as grandes figuras da literatura mundial. Seu nome original foi Balssa Honoré nasceu em Tours, em 20 de maio de 1799. Filho de um oficial do camponês, teve uma infância infeliz. Forçado por seu pai, estudou direito em Paris 1818-1821. No entanto, ele decidiu dedicar-se à escrita, apesar da oposição dos pais. Entre 1822 e 1829 viveu na pobreza abjeta e teatro trágico escrever romances melodramáticos mal sucedidas. Em 1825, ele tentou a sorte como um editor e impressora, mas foi forçado a sair do negócio em 1828 à beira da falência e da dívida para o resto de sua vida. Em 1829, ele escreveu o romance Os Chouans, o primeiro que leva o seu nome, baseado na vida de Breton camponeses e seu papel na insurreição monarquista de 1799, durante a Revolução Francesa. Embora ele pode ver algumas das imperfeições de seus primeiros escritos, é o seu primeiro romance importante e marca o início de sua evolução imparável como escritor. Trabalhador incansável, Balzac poderia produzir cerca de 95 romances e vários contos, peças de teatro e artigos de jornal nos próximos 20 anos. Em 1832, ele começou sua correspondência com uma condessa polonesa, Eveline Hanska, Balzac, que prometeu casar após a morte de seu marido. Ele morreu em 1841, mas Eveline e Balzac não se casar até março de 1850. Balzac morreu em 18 de agosto de 1850. Em 1834, ele concebeu a ideia de fundir todos os seus romances em uma única obra, "A Comédia Humana". Sua intenção era proporcionar um grande afresco da sociedade francesa em todos os seus aspectos, desde a Revolução de seu tempo. Em uma famosa introdução escrita em 1842, explicou a filosofia do trabalho, que se reflete em alguns dos pontos de vista dos escritores naturalista Jean Baptiste Lamarck e Geoffroy Saint-Hilaire Étienne. Balzac disse que, como os diferentes ambientes e património produzir diversas espécies de animais, as pressões sociais criam diferenças entre os seres humanos. Propõe-se assim para descrever cada um o que ele chamou de "espécie humana". O trabalho deve incluir 150 novelas, divididas em três grupos principais: costumes, estudos filosóficos e analíticos. O primeiro grupo, que cobre a maior parte de seu trabalho como está escrito, é subdividida em seis cenas: privado, provincial, parisiense, militares, políticos e camponesa. Os livros incluem dois mil caracteres, a mais importante das quais aparecem ao longo do trabalho. Balzac foi capaz de completar cerca de dois terços deste grande projeto. Entre os melhores romances mais conhecidos da série incluem Goriot (1834), que narra o sacrifício excessivo de um pai com suas filhas ingratas, Eugenia Grandet (1833), que conta a história de um pai avarento e obcecado com o dinheiro que destrói felicidade de sua filha, Cousin Bette (1846), um relato da vingança cruel de um ciumento velho e pobre, a busca do absoluto (1834), um estudo fascinante de monomania e ilusões perdidas (1837-1843). O objetivo foi o de fornecer uma descrição Balzac sociedade absolutamente realista francês, algo fascinante para o autor. Mas sua grandeza está na capacidade de transcender a mera representação e dar seus romances uma espécie de surrealismo. A descrição do ambiente no seu trabalho é quase tão importante como o desenvolvimento dos caracteres. Balzac disse uma vez que "os acontecimentos da vida pública e privada estão intimamente relacionados à arquitetura", e assim descreve as casas e quartos em que seus personagens se movem de forma a revelar as suas paixões e concupiscências. Embora personagens de Balzac são perfeitamente crível e real, quase todos eles são de propriedade da sua monomania própria. Todo mundo parece mais ativo, vivo e desenvolveram seus modelos ao vivo, ainda vida é superar uma característica de seus personagens. Balzac se torna mediocridade sublime da vida, expondo as partes mais escuras da sociedade. Dá o usurário, a cortesã e grandeza dandy de heróis épicos. Outro aspecto do extremo realismo de Balzac é a sua atenção para as exigências mundanas da vida diária. Longe de trazer vidas idealizadas, seus personagens continuam obsessivamente preso em um comércio de mundo materialista e crises financeiras. Na maioria dos casos, essas questões estão no cerne de sua existência. Por exemplo, a ganância é um de seus assuntos preferidos. Balzac em seus diálogos demonstra um comando extraordinário da linguagem, adaptando com incrível capacidade de retratar uma variedade de personagens. Sua prosa, embora às vezes excessivamente detalhado, possui uma riqueza e dinamismo que o torna irresistível e absorvente. Entre suas muitas obras são, além dos já mencionados, os romances A Pele Fatal (1831), O lírio do vale (1835-1836), César Birotteau (1837), Esplendor e miséria das cortesãs (1837-1843) e O sacerdote de Tours (1839); Tales Libertines (1832-1837), O jogo Vautrin (1839) e suas famosas cartas para o estrangeiro, que representam a longa correspondência que durou de 1832 a Eveline Hanska. ( Fonte: http://epdlp.com/escritor.php?id=1432)

lunes, 28 de enero de 2013

Vanderley Caixe. Presente! Presente! Presente!

Um dia na "praça da Alegria" da Universidade Federal da Paraíba, adquiri um livro de poesias com um rapaz que vendia livros já bastante folheados. 
Em tempo de engajamento no movimento estudantil e  de interesse ávido por poesias engajadas, chamou-me atenção um livro fino, com visual artesanal, com o título "19 poemas da prisão e um canto da terra".  

Passei os olhos nas páginas e encontrei uma poesia que para além da expressão da dor de Dionila Camponesa ao ser despejada, trouxe-me lembranças do passado. 

Lembranças de uma infância volteada de canaviais na Usina Central Olho D'Agua. 
Corre-corre entre canas queimadas, esconde-esconde em terra arada e restos de mata atlântica. Em tempo de safra, fuligem no chão e nos olhos. Corte de cana. Homens esguios com equipamentos de proteção individual improvisados, bonés e roupas sem cor, mas rostos bastante enegrecidos pela força do sol, junto à melanina própria deles. Barulho. Na pele pingos da água quente que esfriava as engrenagens da usina . Tratores e caminhões cheios de cana na ida à Escola Dr. José Hardman.  

Com a saída de meu pai (técnico agrícola) da Usina por não aceitar a opressão de gerentes e a condição salarial insuficiente para sustentar três filhas e uma esposa, com a repetição dessa situação em outras usinas por onde o mesmo trabalhou e com a aproximação com o Movimento dos Trabalhadores Rurais ( MST) compreendi a dimensão da poesia escrita por Vanderley Caixe.

Hoje com mais alguns anos de vida, com outras histórias vividas, com algum aprendizado na militância social e algumas leituras a mais, ouvir novamente a poesia Dionila Camponesa, recitada numa homenagem ao lutador Vanderley Caixe  no Encontro Estadual do MST, aflorou lembranças, reafirmou minha origem e a minha luta. 

Não somos as primeiras, nem somos os primeiros. Não seremos as últimas, nem seremos os últimos.O nosso inimigo  é gigante. Destrói  vidas, alegrias e sonhos. 
A nossa luta  precisa ser leal aquelas/es cujas vidas foram ceifadas na tortura diária do corte de cana, àquelas/es que carregam na memória e no corpo à tortura da ditadura militar, àqueles/as que hoje passam fome nas ruas de todo o mundo para alimentar a ganância e ambição desmedida de um sistema desumano.

Sejamos vários/s " Vanderley Caixes",  escrevendo poesia na luta e na luta recitando poesia.

DIONILA CAMPONESA
  
Dionila camponesa despejada,
lavoura destruída e trecos no chão.
Sessenta e oito anos amainando a terra,
amainando os filhos, produzindo o pão.

Dionila da terra semente,
da terra o ventre,
do filho do chão.
Oitocentos mil pequenos proprietários,
quatrocentos e cinqüenta mil posseiros e,
dois milhões de pequenos arrendatários,
/juntos na expulsão.

Acompanhados, os tratores chegaram com a
polícia e a ordem do juiz.
Não ficou casa,
/não ficou planta no chão.
Sua lavoura destruída
e seus trecos debaixo do pé de pau.

Mais uma favela vai ser construída de despejo,
de desemprego. De toda a injustiça do mundo.

Dionila, a cobiça é o chão!
Mexa nervos e músculos,
O que resta das rugas do rosto ao sol.
Faça da enxada as asas
/e como o pássaro, busque o céu!
Olhe aqueles que com a força dos seus braços
/ganham o mísero pão.

Seja a força para que eles continuem produzindo,
/a macaxeira, a batata e o feijão.

Dionila, dos altos dos céus:
Inspire a força dos seus filhos de Coqueirinho e Cachorrinho,
/ameaçados pela Usina Central Olho D’água.
Estenda seus braços por toda Alagamar,
Piacas, Caipora, Várzea Grande, Riacho dos Currais.
Vá aos agricultores da Fazenda Paripe,
/para eles enfrentarem a
especulação imobiliária.

Lembre-se da luta dos agricultores de Capim-de-Cheiro
/que há anos enfrentam a Usina Maravilha e, agora, os proprietários Assis e
Vasconcelos.
Dionila seja a força de Camucim,
do Sítio das Moças
de Taquara, do Sítio Arame, Capim-de-Cheiro, dos municípios de Alhandra,
Caapora e Pitimbu,
/que o inferno verde dos diabos da Fazenda Tabu está expulsando.
Seja a guarda de Joaquim, seu irmão de roça e da terra,
/ameaçado por todos aqueles proprietários rurais em Mangueira.

Dionila, nossa mãe camponesa,
Olhai os índios da Baia da Traição - da Nação Potiguar;
Olhai pelos pescadores da Barreira Grande,
Acaú, Tejucupapo e todos os outros;
Olhai por Mataraca, Sapé, Rio Tinto, Santa Rita, que
pelas mãos que as usinas vão matar, na calda envenenada,
nos pilares da cana-de-açúcar - a destruição do ar
- a destruição da terra - a destruição dos rios.

Dionila verta por nós as lágrimas que o despejo enxugou.
Dionila,
é o boi - o capim
é o trator - a cana
é o capanga - o latifúndio
é o policial - o poder
é a lei - a injustiça
é o dinheiro - o lucro que sua fome vai gerar
é o projeto do álcool
é o plano - o filho legítimo do sistema
é o que você não entende,
/o que seus olhos não compreendem
neste dia de Feliz Ano Novo.! 

 (um dia de um ano, na cidade de Pedras de Fogo, Estado da Paraíba, os tratores da Usina Central Olho D’Água, acompanhado de 40 policiais, um oficial de justiça e do mandado de um juiz – mais tarde afastado por corrupção e prevaricação – expulsaram D. Dionila de sua casa, derrubaram as jaqueiras, mangueiras e a própria casa, destruindo toda a plantação de feijão-de-corda e batata. A Usina precisava plantar cana-de-açúcar.)

(In: 19 poemas da Prisão e um Canto da terra. Vanderley Caixe)

domingo, 6 de enero de 2013

Há vida lá fora...

No final do ano passado, depois de ponderar os prós e contras da decisão, optei por sair do  Facebook. A vida moderna apresenta ferramentas  que criam falsas necessidades para  mulheres e homens. A dificuldade de me concentrar em atividades para as quais deveria  realmente focar; a necessidade de privacidade e de auto-preservação foram alguns dos motivos que levaram a sair do facebook

Depois de passar um tempo, ainda com a vontade de dar uma olhada diária nas postagens de pessoas e compartilhar poesias, textos e fotografias bonitas, percebi o quanto o desapego a essa ferramenta me permitiu aproveitar o tempo com atividades mais interessantes.  
Resgatei a prática da leitura como lazer. O prazer de assistir filmes, mania da adolescência que ficara esquecida,e somente algumas vezes retomava, foi resgatado não como mania, mas como necessidade. Abri-me à possibilidade de concentrar as necessidades, a indignação e o agit-prop faceboquiano em atividades que de fato trarão mais acúmulo de informação/formação e elevação do nível cultural que os compartilhamentos de trechos entrecortados, que citações incompletas de autores, poetisas e poetas que ilusoriamente poderia conhecer.

Teria perdido contatos de pessoas distantes, de amigos (?), de intelectuais... Ficaram realmente os que valem a pena. Os que  lembram, ligam ou visitam para saber como estou passando os meus dias.  Faltariam informações sobre as atividades culturais da cidade? Ficarei sabendo daquilo que me interessa por outros sites e por amigas/os. 

Com quase trinta anos de idade, as minhas necessidades, as minhas ambições, as minhas vontades têm mudado. Se antes já buscava priorizar o que realmente me fazia bem, agora     o farei muito mais. 

É tempo de mais seletividade, de mais aprofundamento, de mais aprimoramento... De menos superficialidade, de menos aparência deslocada da essência. É tempo de mais amor-próprio, de mais segurança, de mais assertividade, de fazer o que realmente vale a pena e o que me faz bem...

Uma ressalva para os que de vez em quando circulam os olhos por esse despretensioso blog: O gosto pelas palavras e pela escrita me farão permanecer por aqui. Em alguns momentos, rascunhando poesia; em outros, reprisando pensamentos de mentes interessantes e em outros pegando o sentido e dando sentido às palavras em poesia. Espero que com melhor qualidade.
Feliz vida!

Ângela Pereira.

A coisa e o seu contrário

Enquanto as palavras próprias são maturadas , tomo emprestadas as de Ademar Bogo.
Contemplada!


Podemos com certeza dizer que não são as pessoas que não prestam, mas a estrutura do poder capitalista envolvente dos indivíduos na condução de seu projeto

03/01/2013
Ademar Bogo  
  
Circula pelas chamadas “redes sociais” um vídeo produzido pelo Movimento Gota d´Água, em que aparecem artistas conhecidos que, descontentes com a construção da Hidrelétrica de Belo Monte, levantam a voz para chamar a atenção da sociedade e do governo sobre as consequências que trará o alagamento de aproximadamente 516 Km2 de terras pertencentes às comunidades indígenas na Amazônia. O que chama a atenção não é a campanha bem intencionada e altiva dos artistas, certamente todos pertencentes à classe média, mas os apoios que recebem de grandes veículos de comunicação, jornais, revistas e televisão, para criticarem o megaprojeto do governo que pretende construir até 2015 a terceira maior hidrelétrica do mundo.          
O fenômeno da critica feita por forças inesperadas ocorre porque, segundo Florestan Fernandes, a “coisa produz o seu contrário”. A coisa, neste caso, podemos considerar o governo, e o seu contrário significa que as forças tidas historicamente como de esquerda, ao chegarem ao mais alto cargo da República abandonaram a luta pelo poder e assumiram as funções da classe dominante, tomando para si os argumentos e as práticas antipopulares que antes questionavam.                  
A “coisa” vem produzindo o seu contrário na esfera dos projetos e das condutas. Se os escândalos institucionais seguem na mesma regularidade de antes da conquista do governo, significa que errado pode não ser o caráter das pessoas que se deleitam com as alturas alcançadas, mas o aparelho que se mantém tal qual como foi recebido, que, como instrumento de trabalho, entorta a consciência e deforma o espírito de quem o maneja.    
Podemos com certeza dizer que não são as pessoas que não prestam, mas a estrutura do poder capitalista envolvente dos indivíduos na condução de seu projeto; estando lá, defendem a ordem e a lei; favorecem aliados; intermediam negócios, empregam parentes e amigos e (se não todos) recebem comissões para o favorecimento pessoal, disputar eleições ou ter crédito em forma de favores a serem cobrados no futuro.           
Fidel Castro em sua gloriosa obra, A História me absolverá, diz em uma certa altura do discurso de seu próprio julgamento em 1953, após denunciar a matança dos prisioneiros, que, “O Estado não oferece garantias de vida a ninguém”. É o que também vemos confirmado na atualidade. A matança indiscriminada de pessoas de qualquer idade em todas as cidades brasileiras e, muitas vezes cometida pelos agentes do Estado; construção de obras que expulsam as pessoas de suas comunidades em nome do desenvolvimento; displicência com o cuidado e o zelo dos funcionários públicos em greve etc. E, não nos iludamos, não há uma repressão permanente nos moldes dos governos anteriores, porque não está havendo mobilizações significativas e articuladas que impeçam da “coisa” exercer a função do seu contrário histórico.                
A coisa virou o seu contrário, porque hoje governam os que ontem protestavam e protestam os que ontem governavam, e a classe média, sem partido porque os próprios partidos viram inverter os seus propósitos e desaprenderam a pensar e a querer transformações profundas no Estado, na exploração econômica, nas relações políticas e sociais.             
Todo e qualquer cidadão minimamente informado das ideias marxistas sabe que o Estado, e com ele toda a estrutura governamental, funciona em benefício do capital e que os trabalhadores ao tomá-lo para si devem utilizá-lo, no primeiro momento, para manter o funcionamento da sociedade mas, logo em seguida, modificá-lo para que possa valer a vontade da maioria, obviamente sem ter nesse meio a classe outrora dominante. A coisa virou o seu contrário porque o germe da ilusão que a democracia oferecida pela ordem capitalista seria o instrumento para resolver todos os problemas.         
A ordem institucional é tão perversa que se alimenta das condenações de seus próprios defensores, com ou sem provas, e, aqueles que são tomados pela força do contrário, nem se importam com as condenações; de certa forma, sentem que os que não são bem vistos, devem ser devolvidos para o mundo onde a coisa ainda continua sendo a coisa, um pouco menos ingênua.  
  
Ademar Bogo é filósofo, escritor e agricultor.

Fonte: http://www.brasildefato.com.br/node/11434

viernes, 21 de diciembre de 2012

Uma Poesia para Saturno

Idade Madura 

As lições da infância
desaprendidas na idade madura.
Já não quero palavras, nem delas careço.
Tenho todos os elementos
Ao alcance do braço.
Todas as frutas
e consentimentos.
Nenhum desejo débil.
Nem mesmo sinto falta
do que me completa e é quase sempre melancólico.
Estou solto no mundo largo.
Lúcido cavalo
com substância de anjo
circula através de mim.
Sou varado pela noite, atravesso os lagos frios,
Absorvo epopéia e carne,
bebo tudo,
desfaço tudo,
torno a criar, a esquecer-me:
Durmo agora, recomeço ontem.

De longe, vieram chamar-me.
Havia fogo na mata.
Nada pude fazer,
nem tinha vontade.
Toda a água que possuía
irrigava jardins particulares
De atletas retirados, freiras surdas, funcionários demitidos.

Nisso, vieram os pássaros,
rubros sufocados, sem canto,
e pousaram a esmo.
Todos se transformaram em pedra.
Já não sinto piedade.

Antes de mim outros poetas,
depois de mim outros e outros
estão cantando a morte e a prisão.
Moças fatigadas se entregam, soldados se matam
No centro da cidade vencida.
Resisto e penso
numa terra enfim despojada de plantas inúteis,
num país extraordinariamente, nu e terno,
qualquer coisa de melodioso,
não obstante mudo,
além dos desertos onde passam tropas, dos morros
onde alguém colocou bandeiras com enigmas,
e resolvo embriagar-me.

Já não dirão que estou resignado
e perdi os melhores dias.
Dentro de mim, bem no fundo,
Há reservas colossais de tempo,
Futuro, pós-futuro, pretérito,
Há domingos, regatas, procissões,
Há mitos proletários, condutos subterrâneos,
Janelas em febre, massas da água salgada, meditação e sarcasmo.

Ninguém me fará calar, gritarei sempre
que se abafe um prazer, apontarei os desanimados,
negociarei em voz baixa com os conspiradores,
transmitirei recados que não se ousa dar nem receber,
serei, no circo, o palhaço,
serei, médico, faca de pão, remédio, toalha,
serei bonde, barco, loja de calçados, igreja, enxovia,
serei as coisas mais ordinárias e humanas, e também as excepcionais:
tudo depende da hora
e de certa inclinação feérica,
viva em mim qual um inseto.

Idade madura em olhos, receitas e pés, ela me invade
com sua maré de ciências afinal superadas.
Posso desprezar ou querer os institutos, as lendas,
descobri na pele certos sinais que aos vinte anos não via.

Eles dizem o caminho,
embora também se acovardem
em face a tanta claridade roubada ao tempo.
Mas eu sigo, cada vez menos solitário,
em ruas extremamente dispersas,
transito no canto homem ou da máquina que roda,
aborreço-me de tanta riqueza, jogo-a toda por um número de casa,
e ganho.


Carlos Drumond de Andrade

ESTAÇÃO SATURNO


Guardei, dentro de mim, profundos sentimentos, macerando-os.
É como se quisesse quebrar cada pedaço em pedaços menores, miudinhos...
E quem sabe misturar...
É como se quisesse prender, provisoriamente, dentro de mim os incômodos, as angústias, as palavras que não foram jogadas na cara, não rasgaram os ouvidos alheios, nem entraram boca a dentro.
Em nome do respeito e desrespeito aos espaços quadrados com cantos escusos.
Guardei e agora, depois de remoer tudo, jogo fora.
Maturidade? Imaturidade?
Idade?
Ida de um caminho sem volta.
Caminho sem volta e sem ida?
Caminho de ida com passos firmes. Caminho de volta apenas no plano da autoconsciência.

Estação Saturno.

miércoles, 28 de noviembre de 2012

"Quem não se comunica se trumbica."


Dizer com clareza o que se pensa e o que se sente é a chave para se relacionar melhor no mundo

por Eugênio Mussak | foto André Spinola e Castro

Perus são inimigos dos gambás porque estes matam seus filhotes para comer. Uma perua ataca um gambá sem piedade para defender sua prole e, em geral, consegue colocar o malcheiroso para correr. Se colocarmos um gambá de brinquedo, feito de pano, perto de uma perua, ela o destruirá em minutos.
Uma das experiências mais curiosas sobre o comportamento dos animais foi feita com um gambá e com uma perua e seus filhotes. Um biólogo amarrou um pequeno gravador no peito de um gambá, emitindo os piados de um filhote de peru, e o deixou perto de uma família dessas aves, cuja mãe, como sempre, estava zelosa e atenta a qualquer perigo. Entretanto ela não atacou o gambá, que continuava parecendo um gambá, caminhando como um gambá e, principalmente, cheirando como um gambá. Só que piava como um peruzinho. Foi o suficiente para ser aceito como tal.
Esse é apenas um dos muitos exemplos da força da comunicação. Na outra mão, provavelmente um peru que imitasse o ruído de um gambá seria imediatamente repelido pelo grupo. Em resumo, você quer se dar bem com um peru? Pie como ele. Deseja se relacionar bem com um humano? Faça com que ele o entenda. Comunique-se. Quem se comunica costuma obter o que deseja. E quem não se comunica se trumbica.
Comunicação e evolução
Poderíamos dizer que, com a evolução, o ser humano aumentou sua capacidade de se comunicar. Que evoluiu da comunicação oral para a comunicação escrita, desenvolveu tecnologias, inventou o correio, o telégrafo, o telefone e hoje não sabe mais viver sem o e-mail e o celular. Só que o que ocorreu não foi isso. Evoluímos porque melhoramos nossa capacidade de comunicação e não o contrário. A comunicação foi o atributo que permitiu a evolução de nossa espécie, com o surgimento da sociedade humana.
Pensamento e comunicação estão ligados desde sempre. Precisamos pensar para falar e, ao falarmos, melhoramos nossa capacidade de pensar, porque o esforço pedagógico para que nosso interlocutor nos entenda melhora nosso próprio entendimento. Aliás, esse é o princípio da terapia. O psicólogo estimula o paciente a falar, organizando pensamentos e sentimentos. Na aparência, o paciente fala com seu terapeuta; na prática, fala com ele mesmo. E é dessa autocomunicação, estimulada e mediada por um estranho, que a pessoa retira seu autoconhecimento. E, deste, vem o desenvolvimento pessoal.
O erro mais comum que se comete é imaginar que podemos comunicar uma idéia com perfeição apenas usando as palavras adequadas. É claro que as palavras certas são imprescindíveis, mas não podemos esquecer que palavras não têm vida própria ¿ precisam, para viver, da qualidade da voz que as pronuncia.
Comunicação e emoção
A palavra representa uma idéia e constrói uma mensagem, mas quem transporta essa idéia e essa mensagem é a modulação da voz. Palavras são a representação do intelecto, a modulação da voz é o manifesto da emoção. E a comunicação será tão mais eficiente quanto melhor for a interação entre a razão e a emoção.
Acontece com freqüência de uma pessoa dizer algo que lhe parece totalmente lógico e ser entendido de maneira ilógica por seu interlocutor. Às vezes, uma tentativa de elogiar transforma-se em uma pesada ofensa. Por outro lado, uma crítica severa pode ser aceita como uma manifestação de amizade e carinho. Por que acontece isso? No primeiro caso porque a emoção da voz não foi compatível com a qualidade da mensagem. No segundo porque a aspereza do comunicado foi amenizada por uma entonação correta, que deixou claro que aquela crítica era um desejo de construção e uma manifestação de amizade.
Pode parecer estranho,mas em um ato de comunicação a forma é tão ou mais significativa do que o conteúdo. Tanto na aprendizagem quanto na comunicação, a emoção é mais determinante do que a razão ¿ e, repetindo, a emoção não está na palavra, e sim na maneira como ela é pronunciada. E não faltam exemplos na política, no direito, na religião e até no futebol de pessoas que não falam nada com nada, mas convencem quase todo mundo. Imagine, então, se você associar um bom conteúdo com uma boa qualidade na comunicação.
Aliás, se você deseja convencer alguém com seus argumentos, a primeira providência é estar, você mesmo, convencido. Senão sua comunicação será falha. A comunicação sem consistência não se sustenta por muito tempo. No filme Kate e Leopold, um lorde inglês do século 19 viaja no tempo e acaba na Nova York contemporânea. Envolve-se com uma publicitária que tem a idéia de aproveitar o galante personagem em uma propaganda de margarina.
O rapaz fala o texto de maneira convincente, enaltecendo o sabor, mas, na hora de comer o pão com a dita margarina, faz uma cara feia e se recusa a comer o que ele dizia ter ¿gosto de sebo¿, e a continuar o trabalho. A publicitária então lhe diz: ¿Mas isto é apenas propaganda¿. Ao que o nobre retruca: ¿Como você pode fazer propaganda de uma mentira? Isso não é ético¿.
Sim, quem não se comunica se trumbica, mas às vezes quem se trumbica é quem comunica inverdades, como temos visto nas patéticas cenas protagonizadas por publicitários da política ¿ comunicadores profissionais que capricham na forma, sem se preocuparem com a verdade do conteúdo.
Comunicação e lógica
Clareza de idéias é uma qualidade dos bons comunicadores. Tornam claros os pensamentos, para que os outros possam ¿vê-los¿. Organizam as idéias antes de organizar as frases. Comece a observar se você pensa antes de falar, assim como pensa antes de escrever, e se organiza as frases com a melhor lógica possível. Depois treine a melhoria da organização de suas frases. Ter clareza pode ser uma questão de treino.
Não tenha medo de ser considerado pedante por conjugar os verbos corretamente, fazer concordância entre os pronomes e pronunciar as palavras por inteiro, sem comer finais e sem deixar partes entregues ao ¿subentendido¿. Prefira ser elogiado pela clareza. Quando alguém não entendeu sua mensagem, pergunte a si mesmo ¿por que será que eu não me fiz entender?¿, em vez de transferir a responsabilidade ao outro perguntando ¿por que será que ele não me entendeu?¿.
Preste atenção na organização de suas falas. O ritmo adequado da fala facilita o entendimento da mensagem. Observe a velocidade, pois há quem fale depressa demais, assim como há quem fale muito devagar. O primeiro tipo angustia o interlocutor, pois não cria o tempo necessário à interpretação, e o segundo irrita com a monotonia, pois o entendimento aconteceu antes da conclusão da frase, e isso pode gerar dispersão. O timing verbal também é demonstrado através de coisas como o comprimento das frases, a obediência à pontuação, a tonificação das sílabas mais significativas.
Clareza de expressão é a manifestação externa da lucidez do pensamento. Pessoas lúcidas são as que luzem, ou seja, emitem ¿luz¿, e seu traço principal é a coerência de idéias. Lúcida é o nome que se dá à estrela mais brilhante de uma constelação, também chamada estrela alfa. Lúcida também é a designação de uma técnica de lapidação de diamantes que confere à pedra um brilho maior, que se traduz em imensa beleza. Pessoas lúcidas também são assim, brilham mais através da maneira como se comunicam.
Comunicação e relações
Vivemos em um mundo em que os povos não se entendem, provocando grandes conflitos, e costumamos ouvir que o que está faltando é diálogo. Se olharmos para o mundo comum ao nosso redor, também encontraremos uma série de pequenos conflitos, pessoais e profissionais, sobre os quais podemos fazer o mesmo comentário: está faltando diálogo. Parece que tudo ocorre a partir do diálogo.
A biologia nos dá lições sobre esse tema. No livro A Segunda Criação, de Ian Wilmut (Objetiva),há uma reflexão perturbadora. Esse geneticista britânico, ¿pai¿ da Dolly, a ovelha-clone, afirma que os genes não operam isoladamente: ¿Eles estão em diálogo constante com o resto da célula, que por sua vez responde a sinais de outras células do corpo, que por sua vez estão em contato com o ambiente externo. Esse diálogo controla o desenvolvimento do organismo (...). O diálogo entre os genes e o ambiente que os circunda continua depois que o animal nasce e durante toda sua vida, e, se ele não se processa corretamente, os genes saem fora de controle, as células crescem desordenadamente e o resultado é o câncer¿.
Trata-se de uma reflexão a respeito de um fenômeno biológico, sobre o comportamento das células, mas nos remete a uma segunda reflexão, esta sobre o comportamento das pessoas. Seríamos nós produtos de um permanente diálogo entre nosso interior e o mundo em que vivemos? Seria o ser humano um animal parcial, considerando que só controla parte de seu comportamento, estando a outra parte entregue à variação de um mundo em permanente transformação?
Ao que tudo indica, sim. Nosso bem-estar e nossa felicidade dependem de nós ¿ mas também do mundo e, como conseqüência, da qualidade do diálogo que estabelecemos com esse mundo.Nesse sentido, sou eu e o mundo, em permanente troca de informações e buscando o consenso ¿ que, em última análise, é condição para a felicidade. Entender o mundo e me fazer entender por ele é o grande desafio. Ninguém deve ganhar esse diálogo, pois ele não é um embate, é um apelo de paz. O diálogo existe para que não haja imposição, e sim entendimento, compreensão e, ao final, o consenso.
Você viverá melhor quanto melhor dialogar com a pluralidade do mundo. Por outro lado, como diria Chacrinha, comunicador da televisão brasileira que criou a expressão que logo caiu no gosto do povo: ¿Quem não se comunica... se trumbica¿. Da qualidade do diálogo vem a qualidade da vida. Os diálogos bem-sucedidos, internos e externos, acalmam, amansam, aveludam, alegram.


Eugênio Mussak é professor e consultor na área de desenvolvimento humano. Costuma reunir-se com sua equipe para ter boas idéias. Confira no site: www.eugeniomussak.com.br.

lunes, 26 de noviembre de 2012

Até quando?**




**Em tempos de guerra sangrenta, socializo um texto escrito janeiro de 2009. Apesar de desatualizado traz alguns elementos sobre o conflito histórico entre Israel e Palestina.



 Ângela Pereira*

“Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros.”
Ernesto Che Guevara

Milhões de pessoas pelo mundo fazem essa pergunta... Até quando?
Até quando, a humanidade insistirá em se destruir pela ganância, pela manutenção de sistemas político-econômicos desumanos, pelo imperialismo e desrespeito à soberania dos povos, pela intolerância com as diferenças religiosas e étnicas?
Iniciado no dia 27 de dezembro de 2008, o ataque de Israel a Palestina resultou em mais de mil e trezentos palestinos mortos, sendo 410 crianças e 108 mulheres, e mais de 5.300 feridos, segundo serviços de urgência de Gaza, a maioria deles não têm relação com grupos militares palestinos, ou seja, são civis. Do outro lado 20 mortos.[1]As péssimas condições de existência cada dia ficaram mais graves: falta eletricidade e gás para aquecer e iluminar a faixa de Gaza em pleno inverno e baixas temperaturas; falta comida, remédios, água potável e os hospitais estão lotados.
A desproporção dos ataques foi absurda e a mídia mentirosa bombardeia a casa dos brasileiros com falsas verdades. Não se tratou de uma guerra. Foi um massacre!!! Um verdadeiro genocídio! Numa guerra, exércitos disputam entre si! Esse não é o caso. Nesse episódio, foram tanques de guerra, bombardeios por ar, terra e mar por parte de Israel contra foguetes do Movimento de Resistência Islâmico, o Hamas, em defesa do povo palestino e do direito ao território e à vida. A capacidade de guerra de Israel é semelhante à usada pelos Estados Unidos das Américas (EUA) quando este atacou o Iraque.
Embora ambos os lados tenham decretado o cessar fogo, o crime de tensão e insegurança ainda permanece e permanecerá entre o povo palestino.
A mídia hegemônica também não apresenta ao povo brasileiro quais os reais motivos do conflito histórico, quem está por trás dele e quais os principais interesses envolvidos. Retomando um pouco na história poderemos compreender a atual situação na faixa de Gaza.
A Palestina foi habitada desde os tempos pré-históricos mais remotos. Talvez por causa da sua situação geográfica – faz parte do corredor entre a África e a Ásia e ao mesmo tempo fica às portas da Europa – a Palestina nunca foi sede de um poder que se estendesse para além das suas fronteiras. Pelo contrário, esteve quase sempre submetida a poderes estrangeiros, sediados na África, na Ásia ou na Europa. [2]
No final do II milênio A.C., a Palestina começou a receber imigrantes de várias regiões dentre eles judeus.  Após muitos conflitos, então, passou a ser território do Império Romano, sendo os judeus foram resistentes a essa dominação. No entanto, após essa dominação, os judeus perderem força e foram fragmentados em vários grupos.  Mas prevaleceu neles a vontade de que todo o seu povo construísse um Estado Judaico.
 No século XIX, com o triunfo de ideologias nacionalistas surgiu entre os judeus laicos da Europa central e oriental um movimento nacionalista secular cujo objetivo era a criação de um estado dos judeus, sendo este considerado como o único meio de assegurar a identidade e a sobrevivência da nação judaica, assim como de lhe garantir um lugar ao sol entre as demais nações. Os nacionalistas judaicos não tardaram a optar pela Palestina. Essa escolha, embora não fosse necessária, era natural e particularmente mobilizadora, por causa da ligação do judaísmo à Palestina e da atração que ela exerce mesmo sobre muitos judeus que não são religiosos ou originários desse país.  Esse movimento tomou o nome de sionismo, palavra que deriva de Sião, um dos nomes de Jerusalém na Bíblia. A opção pela Palestina se enquadrava nos projetos coloniais das potências européias, sobretudo da Grã-Bretanha e da França, que preparavam a partilha dos despojos do império otomano decadente. Foi sem dúvida por isso que o projeto sionista vingou.
Na I Guerra Mundial, a Grã-Bretanha, atual Inglaterra, tinha interesses pelas terras Palestinas e prometeu aos sionistas que obteria uma terra para formação do Estado Nacional Judaico.  Através da Declaração Balfoura Grã-Bretanha prometeu à Federação Sionista que faria todo o possível para o estabelecimento de "um lar nacional para o povo judaico". De fato isso aconteceu, quando as forças britânicas ocuparam as terras da Palestina e ficaram com a sua administração. As potências aliadas através do Pacto da Liga das Nações estabeleceram o sistema de mandatos para posteriormente distribuir as colônias para a formação de estados nacionais sobre a tutela das potencias mandatárias.
 Na conferência de San Remo a 25 de Abril de 1920, o Conselho Supremo Aliado repartiu os Mandatos para essas nações entre a França (Líbano e Síria) e a Grã-Bretanha (Mesopotâmia, Palestina/Transjordânia). O Mandato para a Palestina, que incorpora a Declaração Balfour sobre o estabelecimento do "lar nacional para o povo judaico", foi aprovado pelo Conselho da Liga das Nações a 24 de Julho de 1922, tornando-se efetivo a 29 de Setembro do mesmo ano.  Com o tempo todas as nações, exceto a Palestina, tornaram-se independentes.
Graças ao Mandato para a Palestina, o patrocínio do projeto sionista, que era um elemento da política britânica, tornou-se política oficial da Liga das Nações. Esta não só deu ao projeto sionista a caução internacional, mas forneceu-lhe também os meios para a sua realização. A Grã-Bretanha, a quem o Conselho Supremo Aliado (isto é, os vencedores da guerra) confiara o Mandato da Palestina, era sem dúvida alguma a potência mais indicada para implantar a política da Liga das Nações em relação a esse país. De fato, a administração britânica procurou cumprir fielmente enquanto pôde a missão que lhe fora confiada.
Rapidamente os sionistas aproveitaram a estrutura instalada naquele momento e o apoio britânico para trazer de volta os judeus. Os palestinos não se agradaram da idéia e inicialmente resistiam pacificamente, posteriormente começaram a surgir conflitos sangrentos não dirigidos apenas aos sionistas, mas também aos britânicos a quem exigiam um estado palestino. Realizando uma grande greve geral em 8 de maio de 1936.
 Reconhecendo a dificuldade de os Palestinos desistirem da independência, os britânicos começaram a pensar na divisão do território, proposta que não agradou a nenhuma das partes. Percebendo a inviabilidade da sua proposta, a Grã-Bretanha propôs a formação de um único estado sionista e palestino, abandonando o suporte dado aos sionistas. Os Judeus trataram de reforçar a imigração do seu grupo para a Palestina e recorreram ao EUA para pedir ajuda. Vários ataques a tropas britânicas começaram a ser efetuados por grupos de guerrilhas e a Grã-Bretanha desistiu do mandato, repassando–o para a Organização das Nações Unidas (ONU).
A ONU retomou a proposta de divisão do território sendo que Jerusalém ficaria sob domínio da ONU. Os judeus ocuparam as aéreas destinadas a eles pela divisão e aos poucos foram avançando sobre outras áreas. Com a saída das últimas tropas britânicas, Israel proclamou a criação do Estado Judeu, eclodindo conflitos no território em disputa. Em 15 de maio de 1948, um dia após a saída das tropas britânicas a guerra se espalhou.  Os palestinos juntamente com transjordanianas, egípcias e sírias, ajudadas por contingentes libaneses e iraquianos formaram a coligação árabe, no entanto as forças judaicas eram mais fortes e possuíam maior exército. Ao final da guerra Israel já ocupava 78 % da Palestina, ficando fora do estado judeu a cadeia de baixas montanhas do centro e do sul da Palestina, a chamada Cisjordânia, assim como a Faixa de Gaza. Jerusalém ficou dividida: a parte oeste da cidade extramuros ficou do lado de Israel; a cidade antiga e o bairro extramuros a norte ficaram do lado árabe. Israel declarou Jerusalém sua capital, contrariando a decisão da Assembléia Geral da ONU de 1947, que recomendava a internacionalização da cidade.
A maior parte da população palestina virou autóctone, refugiados e amedrontados com a violência de Israel. A ONU em dezembro de 1948 aprovou a resolução 194 que reconhece aos refugiados palestinos o direito de regressarem aos seus lares ou de serem indenizados, se assim o preferirem. Todavia Israel não aceitou, recusou-se e continua a recusar-se a aplicá-la. Acelerou o processo de extermínio e de destruição das terras dos refugiados palestinos, distribuindo as suas terras aos imigrantes judeus, Israel tornou impossível o regresso de uma boa parte dos refugiados aos seus lares. A esmagadora maioria dos refugiados amontoou-se em acampamentos na Faixa de Gaza, na Cisjordânia, na Jordânia, na Síria e no Líbano.
Em 5 de junho de 1967, Israel realizou uma guerra-relâmpago, “a guerra de seis dias”, durante a qual ocupou toda a Península do Sinai (egípcia) a Faixa de Gaza (sob administração militar egípcia) a Cisjordânia juntamente com Jerusalém Oriental (anexadas pela Jordânia em 1950) e o Planalto do Golã (sírio). Israel anexou a parte de Jerusalém recém-ocupada.
A chamada "Guerra dos Seis Dias" fez mais refugiados palestinos, da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, alguns dos quais o eram pela segunda vez. A maioria foi para a Jordânia. Os restantes foram para o Egito, a Síria e outros países.
Em 1967, o Conselho de segurança da ONU aprovou a resolução 242 que se propunha formular os termos para uma paz justa e duradoura no Próximo Oriente baseada no respeito pelos princípios da Carta da ONU e na inadmissibilidade da aquisição de territórios pela guerra. A resolução ordena a retirada das forças armadas israelitas dos territórios ocupados no recente conflito em troca do reconhecimento pelos estados árabes do Estado de Israel dentro das linhas do armistício de 1949.
A situação mudou a partir de 1967. O povo palestino voltou a tomar em mãos o seu destino. Por mais que se tenha esforçado por negar a sua existência, Israel teve finalmente que reconhecer o povo palestino não só como povo, mas também como "interlocutor/inimigo" inevitável. Encarnaram as aspirações nacionais palestinas a Organização de Libertação da Palestina (OLP) uma coligação de partidos ou grupos que havia sido criada em Jerusalém, em 1964. Tal como foi formulada em 1968, a Carta da OLP, na linha do que sempre fora a política palestina, propunha-se como objetivo a criação do Estado da Palestina em todo o território nacional. Isso implicava o desaparecimento do Estado de Israel. A carta da OLP considerava os judeus que viviam na Palestina antes da "invasão sionista" como palestinos com pleno direito à cidadania, como os demais habitantes: muçulmanos, cristãos e de outras religiões ou etnias.
 Desde então, várias foram as tentativas de se gerar acordos de paz, no entanto, ambas das partes não aceitam acordos sendo cada vez mais sangrentos os conflitos.
Nos últimos anos, os EUA, sob argumento de que Israel precisa se defender do Hamas, ofereceu armas e anualmente a assistência de US$ 3 bilhões (três bilhões de dólares) para financiar a investida imperialista do Israel sobre países vizinhos, no controle de territórios, rotas de comércio de produtos em geral e do petróleo; como para distribuir os armamentos que aquele país produz e semelhantemente distribui para outros grupos e governos como, por exemplo, para o governo fascista da Colômbia, através do Plano Colômbia. Os EUA foi responsável pelo financiamento e apoio à sucessão de golpes militares na América Latina, iniciada em 1954 na Guatemala, a invasão da Baia dos Porcos em Cuba (1961), a Guerra no Vietnã (1964-1973), o golpe militar na Indonésia (1965), a invasão de Granada (1983), o bombardeio da Síria (1986), a invasão no Panamá (1989), a ocupação do Haiti (1994), a guerra da Somália (1994), a Guerra do Golfo (1991), até as invasões mais recentes do Afeganistão (2001) e Iraque (2003) [3] sendo esses alguns exemplos da intervenção bélica ianque pelo mundo.  Sustentar esse conflito no oriente médio fez parte da política imperialista do governo Bush. Como se viu, os ataques foram retomados de forma brutal justamente no término do mandato do Governo. Ainda permanece a incógnita se o próximo Presidente dos EUA, Barack Obama, manterá a política militarista de Bush filho.
Para entender mais a relação dos EUA com Israel é preciso saber que nesse país existe uma forte influência de judeus sionistas que de lá estabelecem relações como governo de Israel, o trecho seguinte do Rabino Elmer Berger (Presidente do Conselho Mundial para o Judaísmo) expressa bem essa afirmação.
 “A opinião pro - sionistas nos Estados Unidos e nos outros países é orientada e dirigida do exterior. As investigações sobre a estrutura sionista dos Estados Unidos, levadas a efeito pelo Comitê de Relações Exteriores do Senado americano, em 1963, deixou este fato estabelecido. A Agencia Judaica pro Israel, a Organização Sionista Mundial e os grupos sionistas locais, inclusive os da Inglaterra e da América, são todos, na realidade, de fato e de direito, uma e a mesma coisa; e todos eles são, juridicamente parte do próprio governo israelense. Os grandes Estados democráticos do Ocidente nada trarão de construtivo para a solução do problema da Palestina e falharão, portanto, na proteção do que lhes restar dos seus interesses no Oriente Médio e, muito menos, seguirão restaurar seu prestigio, até que seja posto fim a esta exploração da tolerância democrática pela propaganda sionista/israelense e com imparcial aplicação da lei. Naturalmente, para tomar as providencias necessárias à regularização das relações entre o Estado de Israel e os cidadão de origem judaica de quaisquer desses Estado democráticos, os governos e o povo terão de compreender e fazer uma distinção fundamental entre a legítima tradição espiritual do judaísmo e substancia exclusivista, discriminatória e antidemocrática do nacionalismo contemporâneo do Israel sionista". Rabino Elmer Berger (Presidente do Conselho Mundial para o Judaísmo).[4]
No mundo todo, as pessoas têm ficado mais resistentes a atos como esse e realizado uma série de mobilizações em solidariedade ao povo Palestino. Esse e outros motivos foram os responsáveis pelo cessar fogo iniciado no último domingo (18 de janeiro de 2009).
Laerte Braga, na sua análise “A “trégua” em Gaza – são os “negócios”, apresenta bem quais os motivos que estão nas entrelinhas do cessar fogo. Para ele três foram os fatores que influenciaram a trégua. O primeiro deles foi a forte reação da opinião pública dentro do próprio país, e a recusa de jovens sionistas que em entrarem no exercito como repudio às ações nazi/sionistas. O outro fator foi a preocupação com a imagem do país em todo o restante do mundo, em que ficou evidente que o interesse dos Israelenses é meramente econômica, enquanto o povo palestino tem o sonho de construir uma nação. O último é que o contribuinte ianque percebeu que é o financiador da barbárie na Palestina bem como da construção de todo Estado sionista. E em meio a crise econômica está perdendo as casas que são financiadas por bancos nazi/sionistas. Além disso, o vice presidente Dick Chaney padrinho do nazi/sionismo deixará de “controla as cordinhas que movimentam Bush” . Com a posse de Obama, tido como bom moço pela origem, a necessidade de tirar o país da crise , vai ficar também mais difícil continuar com o ataque.

Mesmo com o cessar fogo é preciso que continuemos expressando o nosso apoio ao povo palestino que ainda sofrerá por muito tempo com os impactos dessa ação terrorista. Assim estimulemos o boicote aos produtos israelenses. Exijamos dos governos sanções econômicas. Estimulemos atos em solidariedade ao povo palestino. Furemos o bloqueio da grande mídia, divulgando em listas de discussão e e-mails, rádios comunitários e jornais dos instrumentos políticos o histórico do conflito, as causas e interesses externos, as informações deformadas da grande mídia, a real situação de calamidade da região da Faixa de Gaza e as imagens estarrecedoras.  E Exijamos do governo brasileiro medidas fortes de posicionamento contra Israel, como o corte de relações diplomáticas assim como fez a Venezuela e a Bolívia.

            E tão importante quanto essas ações, olhemos com outros olhos para o Brasil para as crianças e adolescentes desrespeitados, para mulheres oprimidas e exploradas, para os que morrem de fome e de doenças, para os que morrem pela criminalização dos movimentos sociais quando exercem a legítima defesa de se expressar.
            Continuemos nos perguntando: até quando?! Mas não nos calemos diante das injustiças! E muito menos continuemos parados!

Ângela Pereira* é integrante da Consulta Popular e Assembléia Popular na Paraíba.


[1] Dados extraídos de matérias do Jornal Brasil de Fato (WWW.brasildefato.com.br).
[2] Informações obtidas no site: http://www.alfredo-braga.pro.br/discussoes/palestina.html.
[3] Informação obtida no texto “O último ano da ‘Era Bush’”, escrito Por Maria Luisa Mendonça, jornalista e coordenadora da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. 
[4] Trecho extraído da matéria “A trégua em Gaza- são os negócios”, disponível emhttp://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/analise/a-201ctregua201d-em-gaza-2013-sao-os-201cnegocios201d.