domingo, 27 de febrero de 2011

Inconstância.

Existe por aqui um (desejo) que salta de peito em peito em busca de um por quê.
Existe uma negação e uma afirmação.
Existe um passado e um futuro.
Existe o presente.

Existe o que vale a pena e o que a pena não vale e não arrisca.
Existe o risco e o silêncio.
Existe a verdade e a dúvida.
Existe o desconhecido.

Existe o medo e a coragem.
Existe o sonho e a imposição.
Existe a fome e anorexia.
Existe o descaminho.

Existe o fogo e a água que apaga.
Existe algo que resiste, confunde e alivia.
Existe algo que sucumbe, levanta e sacia.
Existe algo que dorme, some e alicia.


Existe por aqui um (desejo) que salta de peito em peito em busca de um por quê.

Ângela Pereira.
27 de fevereiro de 2011.



viernes, 25 de febrero de 2011

Arco.

Que quer o anjo? Chamá-la.
Que quer a alma? Perder-se.
Perder-se em rude guianas´
Para jamais se encontrar

Que quer a voz? Encantá-lo.
Que quer o ouvido? Emberber-se.
De gritos blasmematórios
Até quedar aturdido

Que quer a nuvem? raptá-lo.
Que quer o corpo? Solver-se.
Delir memória de vida.
E quanto seja memória

Que quer a paixão? Detê-lo.
Que quer o peito? Fechar-se.
Contra os poderes do mundo.
Para na treva fundir-se.

Que quer a canção? Erguer-se.
Em arco sobre os abismos.

Que quer o homem? Salvar-se
Ao prêmio de uma canção.

Carlos Drummond de Andrade

miércoles, 9 de febrero de 2011

Essência.

Nas minhas horas de aparente solidão
Tenho sempre a certeza de que não estou só.


Tenho o rumo da história que me acompanha:

Os choros dos recém-nascidos que não pediram para ser gerados num ato de violência.

Os passos nas ruas dos que chegam após jornadas intensas de trabalho.

Os sons das ambulâncias com sub-vidas do crime em direção aos hospitais lotados.

Os pedidos de socorro da mulher que apanha do marido na esquina.

A sirene do carro de polícia para reprimir a juventude negra transeunte.


Nas minhas horas de aparente solidão

Tenho sempre a certeza de que nunca estarei só,

Porque faço parte de um todo.

Um todo que me pede companhia e força.



Pintura: " Do porfiriato à revolução" por David Alfaro Siqueiros ( pintor muralista mexicana- contemporâneo de Diego Rivera)

sábado, 5 de febrero de 2011

Máquina do tempo.

Quando resolvi voltar ao passado

Percebi que o presente é mais importante


Sem o presente não teria o passado


Sem o presente não terei o futuro.





Ângela Pereira


05 de fevereiro de 2011.

jueves, 3 de febrero de 2011

Minha saudade é vermelha!

Hoje a minha saudade tem cor vermelha...

Tem a cor dos que acreditam

Numa sociedade livre



Onde os rostos suados

Sejam pelo trabalho marcados dia a dia...

Mas sejam também do samba

E coco de roda dançados em harmonia...


Na Bahia em alegria...

Tem a cor de Marighella.

Resistência e poesia

De tantos outros lutadores

Dessa terra brasileira onde soam os tambores

Sei que muitos foram,

Mas também outros ficaram

Não porque desacreditam

Mas porque foram obrigados

Resistir ao capital

De outra forma enfrentá-lo



Se é pelo compromisso

Com a classe a que pertenço

Afirmo o meu desejo de nessas fileiras caminhar

Com força e coragem

Para o grito de liberdade um dia a classe ressoar...


Ângela Pereira.
















miércoles, 2 de febrero de 2011

Iemanjá me leve para Aiocá...

Iemanjá me leve para Aiocá...
Lá prometo resgatar o brilho do olhar...
Em todo tempo livre cantar...
Para os teus filhos dançar...
Muito perfume te ofertar...
E muitas rosas te dar...
Em todas as ondas mergulhar...
Com tubarões nadar...
E com golfinhos desfilar...


Oh Iemanjá!

Sei que o caminho não é tão longo
Só me faltam alguns passos
Para eu te encontrar aí na terra de Aiocá...


Me leve para Aiocá...

Odoyá..odoyá...


Ângela Pereira.
02 de fevereiro de 2011(Aniversário da morte de Iemanjá).

Homenagem à Iemanjá.

lunes, 31 de enero de 2011

Silêncio aos cretinos...

Quando o que vale muito
Se transforma em pouco
E o encanto cai ao chão,


É porque a vida grita em galhardia

O óbvio:

Nem todos são bons como imaginamos...

Nem todos merecem o amor dado...

Nem todos merecem estar vivos...


Porque a vida merece encantamento,
Mas também respeito...

Aos pobres de espírito...
Aos jogadores de plantão...
Só lamento a superficialidade...
E denuncio a cretinice!

Mesmo assim continuo...
Espalhando poesia...
Dando amor a quem merece
Até que provem o contrário!

Ângela Pereira.
31 de janeiro de 2011.

sábado, 29 de enero de 2011

"A dor é inevitável. O sofrimento é opcional" !


"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável. O sofrimento é opcional."


Carlos Drummond de Andrade.

viernes, 28 de enero de 2011

Propriedade e desapego.

Precisamos ser o que vivemos, não o que temos ou queremos ter. Pensar dessa forma faz uma grande diferença. É assim que se consolida ainda mais a visão de que a vida não merece outra coisa do que ser vivida intensamente: nas suas complexidades, nos seus desafios, na sua ininteligibilidade, nas suas experiências mais inovadoras...

Avanço ainda mais para a idéia e, na prática, na necessidade de construirmos relações pautadas pelo cuidado, pelo afeto sensível e intenso, sem querer ter as pessoas como posse. Não é tarefa fácil quando vivemos numa sociedade em que o seu cerne é a apropriação da força do trabalho dos despossuídos dos meios de produção, da forma mais grosteca que existe, uma vez que se tira muitas vezes o direito de vida de homens e de mulheres e que determina a reprodução da ideologia capitalista.
Naquilo que nos resta de tempo livre, aos que resta, porque aos trabalhadores informais cada vez mais lhes é tirado esse direito, cabe a nós procurarmos viver com toda a força e sensibilidade, com relações pautadas na simplicidade, no respeito, principalmente aos companheiros de classe, porque aos que já fizeram a sua opção do lado da trincheira que explora impiedosamente a vida, desejo os maiores dos sofrimentos.
Aos que acreditam e lutam por uma sociedade socialista, com relações pautadas em valores diferentes, em que se prevaleça a alegria, o cuidado, o afeto de sua forma mais profunda e intensa, trata-se de uma necessidade revolucionária afastar-se do apego.
Tentemos exercitar desde já o desapego e deixar que ao menos nas nossas relações, por enquanto, acabemos com a noção doentia de propriedade. Embora a estrutura e as condições materiais sejam outras, nossa tarefa é continuar seguindo na contra-hegemonia.

Ângela Pereira
28 de janeiro de 2010.

sábado, 22 de enero de 2011

Ser poeta.

É flutuar entre o mundo real
E o das ilusões

É catucar o ferimento
E oferecer o tormento.

É debulhar o encantamento
Que a vida traz por dentro.

É parecer rídulo ao expor o sentimento
E relevar o desleixo de quem não tem sentimento.

É ter vida finda
E vida infinita.

É viver o indivíduo
E transcender o coletivo.

É se doar sem querer receber
E receber sem querer se doar.

É dia de sol
E noite de chuva.

É praia
E submarino.

É um dia vida
E o outro morte.

É ter incerteza das certezas
E ter clareza na escuridão.

É ter ao menos alegria de espalhar poesia
Para o sim e para o não!


Ângela Pereira.
22 de janeiro de 2011.