lunes, 12 de abril de 2010

Indiferença


Quando não há pele

E...

Te rasgam a couraça

Como casca de árvore em extinção,

É tão sórdida a dor.

É tão indiferente...

Dor deixa de ser dor...

Dor é expressão de práxis

Do que não fazer.


Quando não há desejo...

Os membros ficam frágeis...

Impressões se desfazem...

Tentativas são incapazes...

De desfazer o rumor

Tamanha a superficialidade

Do corpo em bel-prazer


Quando não há pele

SENSIBILIDADE!

Não há corpo

Não há resposta

Nem êxtase!


Quando não há êxtase...

Nem se tem


História para contar.


Ângela Pereira.

12 de abril de 2010.

viernes, 9 de abril de 2010

E por que , querida, o choro não rompe?

E por que, querida, o choro não rompe?
Perdeu-se no caminho.
Travado no âmago
Espera resposta
Coragem ?
Ou espera o nada...

Somente o tempo passar.

Ângela Pereira
09 de abril de 2010.

martes, 6 de abril de 2010

Sem idas

Idos

Sem idas

Caminho sem volta

Sem partida

Corpos repartidos

Divididos

Perdidos

Sem dias

Sem idas

Sem vida


Ângela Pereira.

06/04/2010.

domingo, 4 de abril de 2010

Mulheres ( auto-organização)

Quiseram nos limitar a um mundo
em que os homens ditam regras opressoras...

Quiseram nos fazer frágeis,
doces, prisioneiras de nós mesmas...

Quiseram nos amarrar nos tabus,
no puritanismo, nas paredes da casa...

Deixaram marcas profundas na nossa mente,
no nosso corpo, na nossa história...

Mas, ousadas, dizemos não!
Libertárias, dizemos não!
Subversivas, dizemos não!
Socialistas, dizemos não!
Feministas, dizemos não!

Às vezes a voz tênue treme...
Às vezes nos falta teoria
Sem tempo livre é covardia...
Às vezes nos oprimem
Camaradas, quem diria...

domingo, 28 de marzo de 2010

O sentido da vida.

Nessas datas em que se aproxima a marcação de mais um ano de vida, a reflexão é inevitável, e porque não dizer essencial.

Várias vezes me ponho a pensar sobre o sentido da vida... Já superei há tempos a concepção de que a vida seja um dom divino ou de que esta exista para a preservação da espécie humana.

O sentido da vida é o sentido que produzimos para ela e por ela. Ou seja, é histórico e material.

O sentido da vida humana é determinado por aqueles que determinam o caminhar da sociedade humana ao longo da história.

É claro que sem o fisiológico (óvulo e espermatozóide) a vida de um ser humano não é produzida. Mas é preciso enxergar a vida para além do biológico. Porque mesmo assim o encontro do óvulo e do espermatozóide pressupõe a existência de uma relação social/ sexual.

Vida é relação. A vida é produzida pelas relações entre as pessoas: relação com o mundo, com a natureza, com mulheres e homens, com seres vivos...

É relação social, em que, nessa sociedade, uns podem mais e outros menos. Em que uns possuem e desenvolvem certas habilidades em detrimento de outras.

É relação histórica, em que cada pessoa, vida humana ou não, tem participação, produz história, conta história.

O sentido que tenho produzido para a minha vida é um sentido coletivo. Que justifica os meus melhores desejos... É verdade, e não nego, que também às vezes ainda titubeio pelo sentido individualista que tem sido produzido pelo sistema capitalista. Quando acontece isso paro, respiro, reflito, admito a fraqueza, mas tomo o titubeio como aprendizado para a mudança e sigo em frente.


João Pessoa, 28 de março de 2010.

Mude! ( Clarice Lispector)

Mude,

mas comece devagar,

porque a direção é mais importante

que a velocidade.

sente-se em outra cadeira,

no outro lado da mesa.

mais tarde, mude de mesa.

quando sair,

procure andar pelo outro lado da rua.

depois, mude de caminho,

ande por outras ruas,

calmamente,

observando com atenção

os lugares por onde você passa.

tome outros ônibus.

mude por uns tempos o estilo das roupas.

dê os seus sapatos velhos.

procure andar descalço alguns dias.

tire uma tarde inteira

para passear livremente na praia,

ou no parque,

e ouvir o canto dos passarinhos.

veja o mundo de outras perspectivas.

abra e feche as gavetas

e portas com a mão esquerda.

durma no outro lado da cama…

depois, procure dormir em outras camas.

assista a outros programas de tv,

compre outros jornais…

leia outros livros,

viva outros romances.

não faça do hábito um estilo de vida.

ame a novidade.

durma mais tarde.

durma mais cedo.

aprenda uma palavra nova por dia

numa outra língua.

corrija a postura.

coma um pouco menos,

escolha comidas diferentes,

novos temperos, novas cores,

novas delícias.

tente o novo todo dia.

o novo lado,

o novo método,

o novo sabor,

o novo jeito,

o novo prazer,

o novo amor.

a nova vida.

tente.

busque novos amigos.

tente novos amores.

faça novas relações.

almoce em outros locais,

vá a outros restaurantes,

tome outro tipo de bebida

compre pão em outra padaria.

almoce mais cedo,

jante mais tarde ou vice-versa.

escolha outro mercado…

outra marca de sabonete,

outro creme dental…

tome banho em novos horários.

use canetas de outras cores.

vá passear em outros lugares.

ame muito,

cada vez mais,

de modos diferentes.

troque de bolsa,

de carteira,

de malas,

troque de carro,

compre novos óculos,

escreva outras poesias.

jogue os velhos relógios,

quebre delicadamente

esses horrorosos despertadores.

abra conta em outro banco.

vá a outros cinemas,

outros cabeleireiros,

outros teatros,

visite novos museus.

mude.

lembre-se de que a vida é uma só.

e pense seriamente em arrumar um outro emprego,

uma nova ocupação,

um trabalho mais light,

mais prazeroso,

mais digno,

mais humano.

se você não encontrar razões para ser livre,

invente-as.

seja criativo.

e aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,

longa, se possível sem destino.

experimente coisas novas.

troque novamente.

mude, de novo.

experimente outra vez.

você certamente conhecerá coisas melhores

e coisas piores do que as já conhecidas,

mas não é isso o que importa.

o mais importante é a mudança,

o movimento,

o dinamismo,

a energia.

só o que está morto não muda!

repito por pura alegria de viver:

a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não

vale a pena!!!!

Clarice Lispector

Clarice Lispector fala por mim...

"Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre."

"Minha consciência é inconsciente de si mesma, por isso eu me obedeço cegamente."

''Me entupo de ausências, me esvazio de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos."..


"Eu vivo à espera de inspiração com uma avidez que não dá descanso. Cheguei mesmo à conclusão de que escrever é a coisa que mais desejo no mundo, mesmo mais que amor."


"O que me mata é o cotidiano. Eu queria só exceções."


"Há momentos na vida em que sentimos tanto
a falta de alguém que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos
e abraçá-la.
"Enquanto escrevo (...) vou ter que fingir que alguém está segurando a minha mão."

"Sou o que quero ser, porque possuo apenas uma vida e nela só tenho uma chance de fazer o que quero.
Tenho felicidade o bastante para fazê-la doce dificuldades para fazê-la forte,
Tristeza para fazê-la humana e esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas,
elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos."

"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro."

"Tenho que ter paciência para não me perder dento de mim: vivo me perdendo de vista. Tenho que ter paciência porque sou vários caminhos, inclusive o fatal beco sem saída."

"A loucura é vizinha da mais cruel sensatez. Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente."

Clarice Lispector


miércoles, 24 de marzo de 2010

“Pedagogia das quedas”.

Quantos dias e noites perdidos pelo choro?

Quantos dias árduos e noites ardidas...

Quantas possibilidades perdidas...

Quantas barreiras erguidas...


Quantos dias e noites perdidos pelo choro?

Quanto peso carregado...

Quantos planos desgastados?

Quantas perguntas-respostas enganadas?


Quantas quedas mais sem se levantar?

Nenhuma mais!!!

Nem mais um dia sem luta!


Ângela Pereira.

lunes, 22 de marzo de 2010

Essas mulheres que marcham.

Eram tantas

Vindas de tantos lugares

Com lilás mais claro...

Ou mais escuro...

Com vermelho forte

Da cor que corre o sangue nas veias...

E com muitas outras cores

Em arco-íris...


Eram também

Negras, indígenas, brancas...

Eram hetero, bissexuais ou lésbicas...

Eram altas, baixas, médias, gordas, magras

Sem padrão...

Eram jovens, idosas e crianças...


Eram brasileiras

Eram, sobretudo, mulheres... umas mais outras menos

Todas se tornando, à maneira Beauvoir, mais mulheres...


Os rostos cansados...

São de mulheres que marcham.

Os corpos suados...

São de mulheres que marcham.

Os gritos entoados...

São de mulheres que marcham.

Os abraços apertados...

São de mulheres que marcham.

Os beijos trocados...

São de mulheres que marcham.


O caminho para a liberdade

É dessas mulheres que marcham!


Ângela Pereira.

22 de março de 2010.

domingo, 21 de marzo de 2010

São ataduras, mulheres!

Os joelhos, tornozelos e pés, mulheres, estão desde então marcados...
São tantos panos... de tamanhos diversos...

São ataduras! Mulheres...
Suponho que as ataduras correram de lugar.
Antes estavam nas bocas e prendiam as mãos, umas às outras.
Hoje mostram o quanto o corpo cansado, expropriado no dia a dia resiste.

São ataduras! Mulheres...
Proponho que as ataduras corram de lugar.
Que as ataduras das mulheres que resistiram a cem kilômetros de caminhadas;
Que as ataduras de mulheres espancadas no dia a dia pela violência sexista
Sejam somente símbolos de resistência
E se precisarem, mulheres, que virem armas!

Ângela Pereira.
21 de março de 2010.